Helvio Nunes da Silva “Zito”: Retrato de um homem do povoBreve história, contada a muitas vozes, daquele que foi o maior político da Alta Mogiana

Esquecida pelos poderes públicos, Ituverava era nos anos 60 uma cidade pobre, ainda com muitas ruas de terra, como a Voluntários de Ituverava, primeira rua a ser asfaltada na gestão Helvio Nunes. O então prefeito, ao lado dos vereadores, começou a mudar essa realidade. Essa luta ganhou mais força em 1966, quando Zito elegeu-se deputado, e Ituverava ganhou então prestígio e escolas, ruas asfaltadas, estação de tratamento de água, Centro Cultural, Faculdade de Filosofia, entre tantas outras obras.
Uma cidade no coração de um homem
Na homenagem ao deputado Helvio Nunes da Silva, o Zito, falecido em 16 de abril de 1998, Ituverava resgata valores centrais da sua história. A história de uma pequena cidade esquecida pelos poderes públicos que um dia, em 1966, realizou o que parecia um sonho impossível: a representação política na capital pelas mãos de um jovem deputado, eleito com os votos da Alta Mogiana.
Para transformar este sonho em realidade, um grupo de políticos da região convocou o então prefeito de Ituverava, Helvio Nunes da Silva. Na verdadeira epopeia que foi esta eleição, Helvio, o Zito, não economizou esforços. Renunciou ao cargo de prefeito e saiu pela estrada em seu carro, buscando votos por todo o Estado.
Elegeu-se com muito esforço, disputando voto a voto a vaga de deputado estadual. A partir daí, a região passou a ter um verdadeiro embaixador em São Paulo, que lutava com garra por todas as suas reivindicações, sem medir esforços. Ao lado de seus aliados, Helvio constituiu uma verdadeira força-tarefa empenhada em obter benefícios para Ituverava, Aramina, Pedregulho, Guará, Rifaina, Buritizal, Igarapava, São Joaquim da Barra, Miguelópolis, e outras cidades da Alta Mogiana. Antes abandonadas pelo governo, estas cidades ganharam recursos, estradas, salas de aula, casas populares, centros esportivos, postos de saúde, ambulâncias, hospitais.
O deputado Zito alcançava estas conquistas com o seu esforço pessoal e sua incansável combatividade, aliados ao apoio firme dos prefeitos e políticos destes municípios. Graças ao trabalho que desenvolveu com estes companheiros, cumpriu quatro mandatos como deputado estadual, representando seus concidadãos na Assembleia Legislativa por 16 longos anos. Hoje, suas conquistas continuam beneficiando as gerações atuais. Ituverava cresceu e se desenvolveu. As obras de Zito e de seus companheiros ainda estão aí, alcançando as novas gerações. Nem sempre foi fácil. Sacrifícios foram feitos pelo caminho. Mas esta é uma bela narrativa que merece ser contada a muitas vozes.
Diante disto, a cidade de Ituverava homenageou o seu eterno representante denominando a antiga Praça Rui Barbosa, de Praça Deputado Helvio Nunes da Silva, onde se encontram a Igreja Matriz e Paróquia Nossa Senhora do Carmo e Centro Cultural Professor Cícero Barbosa Lima Júnior, por meio de um projeto de lei de autoria do vereador Rafael Fernando Mendonça de Freitas Mattos “Gabirú”.
“A Praça Helvio Nunes da Silva é uma homenagem merecida a um político que marcou a vida e Ituverava e região com as suas realizações.” (Lúcio Adalberto Lima Machado, prefeito de Ituverava na época da reinauguração da Praça, onde consta um busto em homenagem ao deputado Zito).
O homem
Helvio Nunes da Silva nasceu a 19 de agosto de 1920 em Ituverava. Filho de Balduíno Nunes da Silva e Francelina Ferreira da Silva “Titina”. A política já era tradição da família: tanto seu avô, José Barbosa Nunes, quanto o pai, foram prefeitos de Ituverava. Helvio e seus irmãos – José Nunes da Silva, Homero Nunes da Silva e Maria Ferreira da Silva Garcia – tiveram um começo difícil:
“Na crise do café, em 29, o pai do Zito, meu tio Balduíno, perdeu tudo. Por isso o Zito teve que trabalhar desde criança. Começou como caixeiro, numa loja de sírios aqui. Depois foi trabalhar na roça. Foi padeiro, professor, trabalhou em cartório. Só se formou professor depois de casado e mesmo assim com dificuldade, porque aqui não tinha escola. Ele tinha de sair de Ituverava para estudar.” (Jayme Titotó Pereira Barbosa, presidente da Câmara de Vereadores de Ituverava na reinauguração da Praça).
Casou-se em 1944 com Eunice Falleiros da Silva, de tradicional família ituveravense.O casal teve cinco filhos: Laís, Luís, Helvio, Eunice “Nicinha” e Luciano. “O que eu admirava muito no Zito – diria até que tinha inveja – era do relacionamento dele com a família. Era um pai amoroso, carinhoso. E era recíproco, pois também contava com o respeito dos filhos, dos amigos e da família.” (Jacob Pedro Carolo, ex-deputado federal e estadual).
A carreira política
Vice-prefeito de Ituverava de 1952 a 55, Helvio Nunes da Silva entrou na política por influência do pai, Balduíno Nunes da Silva. “Desde menino, o Helvio já vivia num ambiente político. O pai dele pertenceu ao velho PRP, era um homem que acompanhou a política desde o começo do século.” (Jacob Pedro Carolo).
Na legislatura 1956-59, Helvio Nunes da Silva elegeu- se vereador, na gestão do prefeito João Athayde de Souza. “Quando ele entrou na política, como vereador, era uma pessoa nova. Os políticos que sempre tinham dominado a cidade não gostavam dele.” (Felipe Liporace Neto, o Titola, ex-vereador de Ituverava).
O próximo passo foi tentar a Prefeitura de Ituverava em duas ocasiões: “Depois disso, ele tentou ser prefeito. Perdeu a eleição e tudo o que tinha, até a casa onde morava. Trabalhou quatro anos e voltou a se candidatar, elegendo-se prefeito (1964 a 1966).” (Jayme Titotó Pereira Barbosa).
Utilizou sua proximidade com o governador Adhemar de Barros para conseguir recursos para a região. “O Zito tinha liderança, e facilidade de acesso ao governador Adhemar de Barros. Os prefeitos da região o procuravam para apresentar reivindicações.” (Jayme Titotó). “Naquela época, o governador Adhemar de Barros morava no Palácio dos Campos Elíseos. O Zito ia lá de noite e dizia: ‘Quero falar com o governador’, e era atendido sem audiência marcada.” (Neder Cagliari, ex-prefeito de Aramina).
Destacando-se como liderança na sua região, o prefeito Zito logo começou a ser cogitado para voos mais altos. “Nós fizemos uma sociedade de prefeitos da região, que permaneceu por muitos anos, com prefeitos de Miguelópolis, Aramina, Igarapava, Pedregulho, Rifaina, Orlândia… E aí, numa reunião em minha casa, lançamos Zito candidato a deputado da região de Ituverava.” (Alcides Furtado, ex-prefeito de Guará).
“Ele se afastou da prefeitura, com nosso apoio integral, e nós conseguimos elegê-lo. Foi uma campanha muito difícil, sem recurso nenhum. Fizemos um trabalho de corpo a corpo com o eleitor, conscientizando-o da importância de ter um deputado para a nossa região. E Zito acabou conseguindo uma votação expressiva. Em Aramina chegou a ter 90% dos votos.” (Thomas Scandiuzzi, prefeito de Aramina).
“A contagem dos votos demorou, foi uma agonia danada. Ficamos esperando, votinho por votinho. Eu passei com ele por várias cidades. Lembro-me até que fomos a Araras, e lá ele recebeu exatamente um voto.” (Alcides Furtado). “Com a cassação do Adhemar, as coisas mudaram muito para o Zito. Mas ele continuou sempre lutando, e procurando um entendimento com os novos governadores, que vieram depois.” (Thomas Scandiuzzi).
Eleito deputado, Helvio cumpriu quatro mandatos: 1967-70, 71-74, 75-78, 79- 82.
“No nosso tempo, a gente se elegia trabalhando pelo município. Trabalhávamos durante o mandato inteiro, visitando semanalmente a região, resolvendo qualquer problema: a construção de uma nova estrada, a instalação de uma agência de Caixa Econômica, um auxílio para a Santa Casa… E quando chegava na eleição seguinte, não havia necessidade de você fazer qualquer tipo de promoção, porque já tinha o reconhecimento da comunidade. Aí, era reeleito com a maior tranquilidade sem gastar dinheiro.”
“O Zito recebia as pessoas na casa dele aqui em São Paulo, a partir das 6:30 da manhã, para depois sair com os prefeitos, vereadores, para as Secretarias de Estado, ou para audiência com o governador… Ele chegava e dizia: ‘Olha, eu fui o deputado mais votado dessa cidade, ajudamos a eleger o prefeito, é nosso companheiro de partido e preciso de solução desse problema’ – Era um leão. Quase sempre conseguia o que reivindicava.” (Jacob Pedro Carolo).
“Para ele, dentro da política, nada era impossível. Tudo tinha um jeito.” (Felipe Liporace Neto).
Na Assembleia Legislativa, chegou a ser segundo- -secretário da Casa. Mas seus interesses principais eram as reivindicações da região. “Eu fui prefeito por dez anos, e nesses dez anos tive o apoio total do Zito. Tudo que eu precisava, ele não mandava recado, e ia comigo pedir em São Paulo. Outros deputados com quem lidei mais tarde, depois que o Zito saiu da política, queriam mandar ofício, mandar recado. Ele não.” (Pedro Scchiavotello, vereador e ex-prefeito da Buritizal).
“O telefone dele tocava sem parar, eu nunca vi o Zito mandar falar que não estava.” (Eduardo Saad, ex-prefeito de Pedregulho). “A gente ligava para ele e falava: ‘Olha, Zito, não saiu a remoção da fulana. Você precisava ver isso’. ‘Mas, Zito, é aquela verba da pavimentação que a gente tinha pedido?’ – Eu vejo isso para você! – Ia ver e dava uma satisfação.” (Alcides Furtado). “Não tem nenhuma cidade aqui onde as obras principais não tenham o dedo dele. Naquele tempo, para arrumar casas populares, fazer um trevo de acesso a uma rodovia, era uma luta de gigante.” (Eduardo Saad, ex-prefeito de Pedregulho).
“Ele não era um deputado de dinheiro. Os políticos amigos trabalhavam para ele sem interesse no dinheiro. Era amizade mesmo. Às vezes a gente até se cotizava para fazer os panfletos da campanha dele.” (Carlos Augusto de Freitas, ex-prefeito de Igarapava).
“Na campanha do Zito, ele não gastava um centavo aqui em Aramina. Até os impressos nós mandávamos fazer. Nós tínhamos prazer com isso. Sabíamos que ele tinha dificuldade financeira, e era de nosso interesse que ele fosse deputado.” (Neder Cagliari, ex-prefeito de Aramina).
“Não era difícil fazer campanha para o Zito. Ele tinha uma facilidade de se relacionar com o povo que era impressionante. Onde se conhecia o Zito, ele não dependia de cabo eleitoral para conquistar o voto. O pessoal votava espontaneamente”. “O Zito nunca aceitou a ditadura. Mas nós éramos prefeitos, e ele era deputado, e tínhamos certa responsabilidade com o nosso povo. Então a gente tolerou, sem admitir. Se você não fosse da Arena, não tinha nem pão nem água. Era preferível renunciar.” (Eduardo Saad).
“Com os adversários, ele disputava no voto e na urna. Não tinha essa coisa de perseguir, fazer mal.” (Alcides Furtado). “Na última eleição que o Zito disputou, em 82, houve todo aquele crescimento da oposição, do PMDB. Tivemos uma votação até maior do que em eleições anteriores, mas nosso partido, a Arena, teve dificuldades. Os eleitores rejeitavam se não fosse PMDB.” (Jacob Pedro Carolo). “O voto vinculado, naquela eleição, foi um tiro que saiu pela culatra. O eleitor sentia tanta insatisfação com o governo, que acabou preferindo votar só na oposição. Mesmo que fosse para sacrificar o deputado de Ituverava.” (Hermes Procópio dos Santos, advogado e ex-vereador em Ituverava).
“Uma vez derrotado, ele parou, porque viu que já não tinha feito a sua parte. Chegou a ter vários convites para voltar, para ser prefeito, ou até deputado estadual. Mas tinha decidido que não voltaria.” (Jacob Pedro Carolo). “O Zito foi o maior político que Ituverava já teve.” (Ecyr Alves Ferreira, ex-prefeito de Ituverava).

*Na próxima edição: as obras, lembranças e agradecimentos.
Fonte: Helvio Nunes da Silva “Zito”: Retrato de um homem do povo. Revista distribuída durante a inauguração da Praça Deputado Helvio Nunes da Silva em Ituverava.