Ituverava em Reminiscência #85

A construção da nova Matriz

Parte 3

Em meados de 1923, assume o vicariato o Cônego Marcos Santiago, vindo da Ilha do Governador, ilustre cidadão de fino trato e que também era jornalista, tendo emprestado o valor de sua cultura para a “Cidade de Ituverava”. S. S. assume a nossa paróquia em virtude de ter sido afastado o Pe. José Rodrigues Coimbra. O ilustre prelado deu prosseguimento à campanha pró-construção da Nova Matriz, já com alicerces prontos.

Em sua passagem pela nossa terra, envidou esforços para o prosseguimento da obra, apoiado por todas as forças vivas da cidade, elevando- a assim metro e meio acima dos alicerces, pois o trabalho era desenvolvido lentamente. Tudo dependia da contribuição do povo, que sempre correspondeu através das campanhas e festas realizadas com o apoio do novo vigário Cônego Marcos Santiago. Em fevereiro de 1925 este retorna ao Rio de Janeiro.

Consultando o livro Tombo n° 1 de nossa paróquia, iniciado em 10 de fevereiro de 1893 pelo vigário João Paulo Roberto, o qual gentilmente nos foi franqueado pelo atual vigário Pe. José Gessy Cippiciani, obtivemos valiosas informações.

Podemos dizer que o estilo da nossa Matriz é misto de românico-basilical, sendo que o que caracteriza o romano são os arcos das colunas e o tipo das janelas redondas. Quando ao basilical, é o estilo retangular da nave sem colunas.

Isto exposto, verifica-se que a 1° de março de 1925, removido da cidade de São Joaquim da Barra, assume a paróquia o experiente e dinâmico Pe. João Rulli (mais tarde Monsenhor João Rulli), que deixou registrado no Livro do Tombo, às fls. 34, sua primeira impressão da paróquia:

“- Triste, fria, foi a primeira impressão que tive ao observar o estado da Paróquia. Tudo em abandono: desde a Capela onde funciona a Matriz até as capelas filiais. E a mesma igreja em construção parada há quatro anos pouco acima dos alicerces, dá impressão… – Deus me auxilie nos trabalhos de reforma que vou corajosamente iniciar. Ituverava, 20 de março de 1925”.

Pelo que se verifica, a construção não estava parada há quatro anos, mas iniciada há quatro anos. Naturalmente houve interrupções que foram motivadas não só pela mudança dos vigários, como também por falta de numerários.

Contava o Pe. João Rulli com 51 anos de idade, e com 27 de vida sacerdotal, o que recomendava para a empreitada. Logo iniciou um trabalho titânico no prosseguimento das obras, dada a vontade inquebrantável, abnegação e confiança no povo que ia conhecendo. Organizou e reorganizou comissões nas quais como sempre estiveram atuantes os elementos principais da sociedade, destacando-se as senhoras. Quermesses não faltaram para que não houvesse obstáculos na continuidade do grande empreendimento.

O jornal “Cidade de Ituverava” esteve como artilharia de primeira linha durante toda a campanha que teve início em 1914, até a sua conclusão. Publicou relações de contribuições, balancetes e tudo o que se referia à divulgação do que era feito pelo vigário e pelas comissões designadas. Foram das páginas da “Cidade”, que extraímos grande parte de nossas citações, onde temos oportunidade de sentir o trabalho de nossos homens do passado, aos quais esse registro é uma homenagem. O Pe. Rulli, em 14 de janeiro de 1928, solicita autorização do Sr. Bispo para a demolição da Matriz velha (a igreja do Largo do Carmo) – “… que ameaça ruir, como aproveitamento do material para a construção da nova matriz”. O despacho do Sr. Bispo em 14 de janeiro de 1928 foi “como pede”.

Às fls. 36 do Livro Tombo, lê-se a nota do vigário: Em 01 de março de 1926 mandei demolir a matriz velha, interditada por estar em ruínas e mandei transportar os materiais para o Largo da Matriz Nova onde no dia 16 de março do corrente ano iniciei as obras da Matriz de baixo da minha administração e da Direção do mestre de obras Antônio Targa da vizinha cidade de Igarapava. Nesta ocasião, o Major Christino Ribeiro, tesoureiro, de toda probidade e mérito cotado pelo Exmo. Sr. Bispo e pelo povo em geral, me fez entrega do livro de contas e das esmolas gastas até aquela data e da quantia de cinco contos de réis que tinha em caixa desde o tempo de sua administração.

Com estes limitados recursos e com muita confiança em Nossa Senhora do Carmo, padroeira da paróquia empreendi a obra com esperança de vê-la um dia não muito remoto, acaba”. Esse fato da demolição da Igreja do Carmo causou espécie. Não foi do agrado geral, havendo até polêmica, pois era desejo do povo que esta não desaparecesse, uma vez que ela simbolizava o nascimento de uma cidade, através da fé de seu povo que ajudou a erigir.

Ainda bem que, mesmo enfrentado todas as intempéries, temos a Igreja Nossa Senhora do Rosário, semelhante a que foi demolida. José Justino da Silva e Joaquim Monteiro, encarregados da demolição da igreja do Carmo, receberam pelo serviço a quantia de 990 mil réis.

Moacir França (13/09/1975)