Advogado esclarece sobre os danos das redes sociais gerados em crianças e adolescentes

“Algoritmos transformaram o cérebro dos jovens em um Reels infinito”, alerta o advogado Lincoln Max

Há mais de duas décadas atuando na defesa dos direitos dos consumidores, o advogado Dr. Lincoln Max decidiu abrir uma nova e complexa fronteira jurídica: os danos das redes sociais. Especialista em identificar práticas abusivas, ele agora aponta suas armas legais contra as gigantes do Vale do Silício.

Nesta entrevista exclusiva ao Jornal O Progresso de Ituverava, ele destrincha os impactos profundos da “Síndrome da Atenção Fragmentada” nos jovens, analisa o peso histórico dos “Facebook Papers” e explica por que as redes sociais violam as diretrizes de segurança do consumidor. De quebra, também compartilha histórias hilárias e preocupantes do seu cotidiano no escritório.

Progresso: O senhor advoga há mais de 20 anos protegendo o cidadão. Por que decidir, agora, processar redes sociais?

Dr. Lincoln Max: Porque o produto mudou, mas o dano continua o mesmo. Antigamente, eu processava empresas por venderem eletrodomésticos que explodiam na sala do consumidor. Hoje, as redes sociais vendem um produto invisível que explode discretamente a saúde mental dos jovens.

O Código de Defesa do Consumidor preza pela segurança e saúde do usuário. Quando uma plataforma desenha um algoritmo projetado especificamente para viciar e reter a atenção de um adolescente a qualquer custo, ela está entregando um produto defeituoso e perigoso.

Progresso: O que exatamente os “Facebook Papers” provaram nesse cenário?

Dr. Lincoln Max: Os Facebook Papers foram o divisor de águas, a “arma do crime” exposta pela denunciante Frances Haugen. Aqueles documentos internos provaram em termos inequívocos que a Meta sabia perfeitamente que o Instagram e o Facebook causavam danos à autoestima e à saúde mental de meninas adolescentes.

Eles tinham os dados epidemiológicos em mãos. Mas o que a diretoria fez? Decidiu priorizar o engajamento e o lucro em detrimento da segurança dos usuários infantojuvenis. Legalmente falando, isso configura má-fé corporativa e negligência explícita.

Progresso: Falando em engenharia algorítmica, como funciona o “design da dopamina” que essas empresas usam para prender os usuários?

Dr. Lincoln Max: É uma engenharia neurocomportamental predatória. As redes sociais são desenhadas como caça-níqueis de cassino. O mecanismo de puxar a tela para baixo e esperar o carregamento de um novo vídeo é idêntico ao de uma alavanca de apostas.

Isso gera o que a psicologia chama de ‘recompensa variável’: você não sabe se o próximo Reels será chato ou muito engraçado. Essa incerteza injeta descargas maciças de dopamina no cérebro do jovem.

O problema comercial e legal é que esse design manipula falhas biológicas humanas para criar dependência química e comportamental.

Progresso: Muitos especialistas falam sobre a “Síndrome da Atenção Fragmentada”. Como o senhor vê isso no dia a dia?

Dr. Lincoln Max: A Síndrome da Atenção Fragmentada é a incapacidade crônica de focar em uma única tarefa por mais de alguns segundos. O cérebro dos jovens foi reprogramado para esperar uma recompensa de dopamina a cada piscada de tela.

Se um vídeo dura mais do que 15 segundos, o jovem já sofre de abstinência e arrasta o dedo para cima. Eles transformaram a capacidade de concentração da nova geração em algo comparável à de um peixinho dourado em um aquário.

Essa nova sequela (além das já conhecidas isolamento social, ansiedade e depressão) está comprometendo a vida acadêmica e profissional dos nossos jovens. Algo precisa ser feito imediatamente.

Progresso: O senhor tem visto essa falta de atenção afetar os seus próprios clientes?

Dr. Lincoln Max: O tempo todo! O nível de dispersão está cômico, se não fosse trágico. Recentemente, um jovem veio ao meu escritório para abrir um processo contra uma fabricante de celulares.

No meio da consulta, enquanto eu explicava os fundamentos jurídicos da ação e as etapas processuais, o rapaz simplesmente se levantou, caminhou até a janela do meu escritório, começou a dançar uma coreografia de TikTok olhando para o reflexo do vidro e depois se sentou novamente como se nada tivesse acontecido.

Eu olhei para o pai dele, o pai olhou para mim, e nós dois apenas aceitamos que a petição inicial teria que incluir um relatório psicológico.

Progresso: O senhor acredita que os pais também estão perdendo o controle por conta desse ecossistema digital?

Dr. Lincoln Max: Com certeza, a fragmentação da atenção atingiu a família inteira. Uma mãe me procurou desesperada querendo processar o Instagram porque o filho não saía do celular nem para comer.

Agendamos uma reunião familiar via Zoom para alinhar as expectativas jurídicas. No meio da chamada de vídeo, o filho simplesmente colocou uma foto estática dele mesmo sorrindo em frente à câmera e saiu do quarto para jogar videogame.

O pior é que a própria mãe demorou uns dez minutos para perceber o truque, porque ela também estava respondendo mensagens no WhatsApp debaixo da mesa! Ficamos eu e uma foto de um garoto de 14 anos debatendo direito do consumidor.

Progresso: Qual é o caminho legal para responsabilizar as Big Techs por esses danos psicológicos?

Dr. Lincoln Max: Primeiro passo é notar que as plataformas são programadas para gerar vício e que isso viola o direito dos consumidores a um serviço seguro (previsto no CDC).

Nos EUA as plataformas já estão sendo responsabilizadas por defeito no produto. Pois o chamado “design da dopamina” que inspira as plataformas é naturalmente viciante e deve ser tratado com a cautela devida. O caminho é procurar seu advogado de confiança.

Fazer laudos da condição psicológica (depressão, ansiedade ou mesmo “Síndrome da Atenção Fragmentada”) e exigir judicialmente indenização das plataformas, pois seus serviços oferecem graves e silenciosos riscos aos consumidores (principalmente jovens).

Enfim, é chagada a hora dos consumidores darem um basta nas redes! Eles lucram bilhões sequestrando a atenção e o futuro dos nossos jovens com serviços altamente viciantes e perigosos. Devem ser responsabilizados Judicialmente para indenizar os danos sociais causados. É preciso que os consumidores fiquem ligados, afinal: É Seu Direito!

Por fim gostaria de agradecer ao Jornal O Progresso por esse espaço para informação e empoderamento dos consumidores. Muito obrigado!

Saiba Mais: Para os leitores do Jornal O Progresso de Ituverava que desejam acompanhar novidades, tirar dúvidas ou saber mais sobre os direitos do consumidor no ambiente digital, acessem a rede social @minutodoconsumidor ou entrem em contato direto pelo WhatsApp (16) 9 9130-9734.