Proclamação da República

Já em época anterior à nossa Independência, os brasileiros vinham se sentindo veementes pruridos republicanos. No Maranhão, em 1684, houve um movimento de grande intensidade, o que aconteceu posteriormente em Pernambuco e Minas Gerais. A coisa, entretanto, assumiu vulto extraordinário no ano de 1873, quando da realização da convenção Republicana de Itu, encabeçada pelo paulista João Tibiriçá.

Todos esses movimentos, todavia, foram abortados. E durante quarenta e nove anos, desde 23 de julho de 1840, data em que D. Pedro II se guindou ao trono, com idade de apenas 14 anos, o Império Brasileiro não se viu ameaçado pelo entusiasmo dos republicanos, porque o monarca brasileiro era verdadeiramente amado e respeitado pelo seu povo, em consequência de sua bondade e justiça. Enquanto ele vivesse, o povo brasileiro não pretendia impor o novo regime governamental.

A partir de 1870, entretanto, o imperador, velho e doente, se abstraiu inteiramente dos negócios públicos, entregando as rédeas do governo aos ministros. Estes avivaram no povo a chamada republicana, porque agiam como bem entendiam, gerando descontentamentos e exaltando os ânimos.

O governo discricionário dos ministros, que criaram, a bem dizer uma oligarquia dentro do império, deu azo a que se formasse então um grupo valoroso de republicanos, tais como Silva Jardim, Benjamin Constant, Assis Brasil, Nilo Peçanha, Francisco Glicério, Saldanha Marinho, Campos Sales, Rui Barbosa, Prudente de Morais e muitos outros mais que cerraram fileiras, decididos dentro do ideal republicano, cujo ideal mais se acentuava com os rumores de que Ouro Preto, a cargo de quem ficara confiado o governo na ausência do imperador, que se encontrava em Petrópolis e preparava o caminho para ascensão  de D. Isabel ao trono, tão logo o monarca falecesse. E D. Isabel não era nada desejada em virtude de ter sido ela a dirigente principal do movimento que culminou com a libertação dos escravos e, também por ser ela casada com um francês. Naturalmente, o povo brasileiro, jamais suportaria um novo domínio estrangeiro.

Assim, dia a dia, a propaganda republicana se tornava cada vez mais entusiasta. Dia a Crônica que o venerado imperador não a ignorava, apesar de o governo imperial, com suas atitudes, fazer crer no contrário. Afirma-se até que D. Pedro II estimulava aquela propaganda, aguardando serena e resignadamente o rumo dos acontecimentos.

Ouro Preto, percebendo que os ânimos estavam para atingir o clímax, convocou apressadamente o ministério de campo de Santana. Às pressas organizou forças, num total de 2 mil homens a cuja frente estava o brigadeiro Almeida Barreto.

Na madrugada do dia 15, o Marechal Deodoro da Fonseca, comandando a segunda brigada, instalou-se na Praça 11 de Junho, tendo ali seguido logo após o campo da Aclimação, onde já se encontravam as tropas sob a chefia do Brigadeiro Barreto.

O Marechal distribuiu as forças em frente a quartel general, postando quatro peças de artilharia na direção das tropas oficiais para amedrontá-las e conservá-las sem iniciativas.

Ouro Preto, brusca e rispidamente, ordena ao Marechal Floriano Peixoto que rechaçasse a Deodoro, no que é desatendido, tão categoricamente que o ministério todo compreende perfeitamente que nada mais lhe adianta fazer, restando-lhe tão somente a alternativa de telegrafar ao imperador solicitando a exoneração. Floriano leva ao conhecimento de Deodoro a decisão formulada pelo ministério, convidando-o a subir à sala onde ele se encontrava reunido.

Estava vitorioso o movimento!

À tarde daquele mesmo dia memorável, os republicanos dirigiam-se ao edifício da Câmara Municipal, tendo ali, sempre a presença de enorme massa popular, sido proclamado o governo republicano. A moção foi apresentada por José do Patrocínio, que também a levou ao Marechal Deodoro, a fim de que fosse sancionada pelas forças armadas, ficando imediatamente proclamada a República dos Estados Unidos do Brasil.

*Texto publicado pela revista Comarca de Ituverava, 15 de novembro de 1948.