Praça Rui Barbosa, “Praça da Matriz” e hoje Deputado Hélvio Nunes da Silva

  “Mamma mia, u Furtunatu dove a comprati a data in mexo u mato!”, exclamaria dona Romana Pugliesi na sua língua ítalo-brasileira à moda de Juó Bananieri, ao saber que o compadre Fortunato Amadeu comprara um terreno à margem da chamada “rua dos carros”, na verdade estrada boiadeira, que a Câmara autorizara o Intendente Zeca Barbosa a construir, consoante a lei n° 49 de 7/04/1906.
   Partia dita estrada do Largo do Rosário e ia serpenteando, mais ou menos, no rumo das posteriores ruas do Carmo, Benjamin Constant e Maria Liporaci, até alcançar os altos da Estação, deixando de lado a Avenida General Glicério (hoje Doutor Soares de Oliveira) e centro comercial, como queria a lei citada.
   Fortunato edificou sua primeira casa no lugar onde se achava (na época) o Cartório de Registro. Depois faria as outras que chegam até a rua da esquina da Rua Cap. Ribeiro dos Santos, enquanto o Paulino, seu filho, construiria a em que então morava o Salvador Contart.
   Naquele ano de 1918, o largo da Matriz era um cerradão de meter medo e daí vem a exclamação da comadre do Amadeu; circundava-o a rua já citada e as estradas que demandavam Guará (mais ou menos a Rua Fernando Costa atual) e a que ligava a cidade às fazendas de além córrego dos Lavapés (atual Quintino Bocaiúva).
   Pouco depois, porém, os precursores do futebol iam aproveitar o cerradão para fazer o campo de futebol da cidade, denominação que prevaleceu por muitos anos, além daquela “campo das galinhas”. José Cotrone, Antônio Manuel de Andrade, José Valente e José Soares (este parente dos Gambi), formaram os primeiros times: Operário Futebol Club e o Ideal Esporte.
   Entre os anos de 1919 e 1925 ou 1926, as grandes figuras do futebol foram: “Vaca Brava”, que outro não era senão o enérgico Antônio Manuel, Varela, Ludovico, o menino de ouro, João e Atílio Borzani, Miguel Mendes, o Geleia, Tião Preto, José Galizi, Inacinho Português (Inácio Pereira dos Santos, teórico socialista), Paulo Amadeu, Paulo Ferlin, Castelinho, Juca Costa, Augusto Costa, Boiadeiro (Jerônimo Restivo), Aparício e Aparecido Carneiro, Ditinho Macedo, José Meu Fio, Neném da Sinhá, Gradin, João e Delcides Telles, Antônio José Ferreira, Bagin, Nef e Jorge Miguel, entre tantos outros que o Paulinho Amadeu também não é ferro para lembrar-se de tudo.
   Os árbitros eram vários, sobressaindo-se o Alcino Parreira. As partidas eram disputadas com verdadeira gana, os craques não ganhavam nada senão aplausos de assistência que também nada pagava, pois o campo era aberto, o que colocava às vezes em risco a segurança dos campeões.
   Quando o time da Altamira, por exemplo, vinha disputar, eram certas as pedradas e tijoladas contra os adversários. Begim era elegante goleiro; o Delcides Teles era muito admirado pelas moças, pois era ágil como um bailarino. Afonso Martins era violento, mas o Minoti, seu irmão, cooperava às vezes com o adversário.
   O campo, às vezes, era ocupado por circos de cavalinhos e touros. Não raro, dois. O povo gostava muito de fogos e ali se armavam os castelos. Em 1922 ou pouco depois, o futebol mudou-se de lugar. O Largo seria ocupado pela Igreja Matriz que, por pouco, não ficou na Praça X de Março, pois assim queria o Cel. Irlandino.
   A localização da Matriz deu azo a muitas discussões. Francisco Galdiano, chefe da enorme família de mesmo nome, queria-a com a frente para sua casa (o atual n° 100 da Praça), o Cel. Irlandino queria-a com frente para a banda onde hoje, entre outras boas casas, se acha o então palacete do Dr. José Ferreira de Assis, governador regional do Rotary Internacional. Chamado a opinar, o Agrimensor Cícero Barbosa Lima entendeu que o melhor seria erguer a Matriz com a frente para a rua Oito (atual Cel. José Nunes da Silva), tal como a Igreja do Largo São Francisco, de São Paulo. E daí podermos ver de longe a torre e fachada da nossa Igreja, que são cópia exata do “Independente Hall” da Filadélfia.
   Teve sorte a Praça Rui: nem rodoviária e nem o fórum que por pouco ali não foram construídos. O belo Largo, com jardim moderno, lindamente iluminado com bancos, gramados e flores, circundado por mansões milionárias com piscina e o resto, palacetes e casas de excelente construção, inclusive a Vila João da Cota, que pretendia fazer muitas casas na Praça. Não levando a peito o projeto que se agastou com alguém da fiscalização que é hoje o lugar ideal para morar-se, há 60 anos não tinha senão as poucas casas citadas e alguns ranchos do José Gomes, pai do André Gomes, e de pobres negros, antigos escravos; sem falar na “cabana do pai Tomás” (os circos de outrora tinham popularizado o romance de Beecher Stowe), que ainda existe na esquina da rua Benjamin com a praça, assim chamada porque ali moravam o Gradin e outros pedreiros de cor, que tinham vindo de Uberaba para construir a Igreja Síria.
   A Praça Da Matriz, como é conhecida, hoje tem a justa denominação de Deputado Hélvio Nunes da Silva, perpetuado na história um dos maiores políticos da Alta Mogiana.
   O nome de Rui Barbosa, porém, consta da história de Ituverava, como primeiro patrono da importante praça, onde hoje está instalado o Centro Cultural Professor Cícero Barbosa Lima Júnior e ao seu redor moradores de famílias tradicionais, comércios, salão comercial, escola de idiomas e a Vara do Trabalho.

(Cidade de Ituverava)