A resiliência humana, suas dores e memórias são os temas do surpreendente filme da Netflix, que encantou por sua abordagem poética e literária
por Kreitlon Pereira colunavia@gmail.com
Lançado na Netflix no início de novembro de 2025, após uma curta temporada nos cinemas norte-americanos, o premiado filme “Sonhos de Trem” chegou à plataforma como uma produção diferente dos demais títulos originais do serviço de streaming. Contemplativo e silencioso, o longa utiliza uma narrativa quase literária para contar a história de um trabalhador comum. Apesar de retratar experiências muito específicas ao longo de seus 80 anos de vida — sobretudo em meio às transformações tecnológicas do período —, o filme aposta em sentimentos universais, como o luto, o amor e a saudade, para capturar a passagem do tempo a partir do olhar de um único indivíduo.
Baseado no livro homônimo do escritor norte-americano Denis Johnson, o personagem central do longa é Robert Grainier (Joel Edgerton), um homem introspectivo e solitário que cresceu órfão nos Estados Unidos do início do século XX. Já adulto, ele trabalha como madeireiro, sendo um dos muitos homens responsáveis por construir e expandir as ferrovias pelo país. Para permitir ao espectador o acesso aos pensamentos de um personagem tão silencioso, o filme recorre à narração de Will Patton, recurso que reforça o caráter literário e confessional da obra. Embora seja uma escolha arriscada e frequentemente divisiva entre a crítica, em “Sonhos de Trem” a narração funciona como elemento poético.
Em determinado momento de sua vida, Robert conhece Gladys (Felicity Jones) e os dois se apaixonam rapidamente. Juntos, formam uma família, têm uma filha pequena e constroem uma casa simples na floresta. No entanto, por conta de seu trabalho, o protagonista precisa se ausentar por longos períodos, fazendo com que os momentos de felicidade sejam constantemente atravessados pela dor da ausência. Quando uma tragédia atinge a família, Robert é obrigado a lidar com perdas profundas e com as transformações inevitáveis da vida. Outro destaque do filme é sua fotografia sensível e delicada, assinada pelo brasileiro Adolfo Veloso, vencedor do Critics Choice 2026 pelo trabalho na construção visual do longa.



