Crônica de Ituverava
Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos “homens pretos”

A Capela Nossa Senhora do Rosário: patrimônio histórico de Ituverava
José Geraldo Evangelista
Não vá pensar o leitor que tudo no Carmo era violência, que seus moradores não tinham outras preocupações senão atritar-se com seus vizinhos, porque foi nessa década de 1870 que se levantou a Igreja do Rosário, uma iniciativa muito distante de lutas e inimizade. A piedade, tão intensa nas populações do interior paulista, levaria a gente do Carmo a não se contentar com a sua pobre e pequena Matriz. Todavia, não encontramos explicação para que sua segunda Igreja fosse dedicada a Nossa Senhora do Rosário, porque o número de escravos não era grande e o templo com tal orago surgia quase sempre por força das irmandades dos “homens pretos”.
Apesar de não encontrarmos nenhum documento específico sobre a “Irmandade do Rosário da Freguesia do Carmo”, é possível historiar alguma coisa sobre a construção da Igreja, porque foi achada no arquivo do 1° Ofício Cível de Franca uma tomada de contas prestadas pelo Procurador da Irmandade, Antônio Ribeiro dos Santos, ao Corregedor da Comarca Juiz de Direito, Augusto Ferreira Alves, a 26 de fevereiro de 1879. Pelo que se deduz da leitura da documentação que nos foi oferecida pelo saudoso amigo Wanderley dos Santos, que é Diretor do Arquivo Municipal de Franca, o Procurador Antônio Ribeiro dos Santos já prestara contas num processo anterior da receita e da despesa da irmandade, porém os recibos das despesas que exibira eram inferiores no total à receita obtida. Sendo assim, responsabilizado pela diferença. Juntando novos recibos, o Procurador provava os desembolsos que fizera. Tais recibos tinham as firmas reconhecidas por Lúcio Rodrigues Dias, Escrivão de Paz da Freguesia do Carmo. A probidade do Procurador fez com que juntasse nova relação de receita, quase sempre de esmolas e de pagamento de promessas para a Senhora do Rosário. Há contribuições insignificantes de até $500 (quinhentos réis) e uma que ultrapassava 100$000, provavelmente resultante da festa anual, tudo somando pouco menos de 500$000.
O difícil para o Procurador foi conseguir os recibos de material ou de serviços realizados, pois se a prestação de contas foi em 1879, alguns recibos citam os anos de 1871 e 1872. Ou foram assinados por viúvas, cujos maridos trabalharam ou venderam material para as obras e já tinham falecido. Outros são datados de lugares diferentes, indicando que o Procurador foi atrás deles porque os que tinham recebido já não moravam mais no Carmo. No total os recebidos somaram 1:200$000. Com eles, ficamos com uma ideia clara, embora imperfeita, da construção da Capela, parecendo não haver dúvidas de que foi iniciada em 1871, prosseguiu em 1872, ficou parada seis anos e completou-se em 1878 e 1879.
Um dos recibos mais interessantes é o assinado pelo Pe. Cármine Torraca, datado de Espírito Santo de Batatais (atual Nuporanga), a 12 de março de 1879. Recebeu, no ano de 1871, 29$200 proveniente de “ferragem e tinta” que comprou (O Procurador) “e o mais pelo serviço que meu escravo Romualdo trabalhou”.
Na época em 1871, o Pe. Cármine exercia, pela primeira vez, o cargo de Vigário; o mesmo tendo feito outros senhores como Dona Joaquina Ferreira da Rocha, viúva de Francisco Rodrigues Rocha, pelo seu escravo Joaquim, carpinteiro ou Joaquim Ribeiro dos Santos, que não citou o nome do escravo. Mesmo quando liberados pelos senhores, parece que cabia à Irmandade a sua alimentação. É o que se concluiu dos 25$000 que recebeu Gabriel Alvez de Figueiredo pelo “sustento aos trabalhadores na ocasião de barrear as paredes”. Se Antônio Ribeiro dos Santos fez uma primeira prestação de contas, é evidente que os serviços e materiais constantes dessa segunda prestação não dirão tudo que foi empregado. Entretanto, seria muito difícil que as telhas ultrapassassem os 2.500 vendidos ao Joaquim Ananias Borges, Dona Joaquina da Rocha e Dona Francelina Garcia Barbosa (com o recibo assinado por seu filho Evangelista Barbosa Lima). As 10 tábuas vendidas por Luís Borges da Silva, de outro lado, seriam muito poucas, da mesma forma que os quatro quilos de pregos vendidos por José Joaquim Alves Branquinho e o maço que forneceu Augusto Simpliciano Barbosa.
Os quatro alqueires de cal, vendidos por Francisco Dias de Oliveira, seriam suficientes? A serragem de madeiras, feitas por Francisco da Silva Leão para o acabamento da igreja. Em 1879 provavelmente foram todas usadas, pois o serviço ficou muito caro, em mais de cem mil réis. Todos os recibos de grande valor foram assinados por José Luís Antônio e Luiz Borges da Silva. Se parece ter ficado patente que a Capela teve suas primeiras obras em 1871 e 1872, é curioso que o Relatório do Fiscal Borges da Silva, o mesmo mestre de obras, datado de 20 de setembro de 1872, não faça nenhuma referência a elas, talvez porque estivesse preocupado com a “limpa” e “asseio” do rego de água, com os “porcos que andavam vagando pela Freguesia” e com cobrança dos direitos municipais ou por causa das citações em relatório anterior, hoje desaparecido.
De qualquer forma, a graciosa Igreja do Rosário perdeu as brumas que envolviam suas origens, e se com estas linhas não ganhou sua certidão de nascimento, pelo menos já se tem noção da época em que surgiu. E do muito suor que exigiu dos ituveravenses do passado, principalmente de Antônio Ribeiro dos Santos, seu Procurador.
*Apenas lembrando que a Igreja Nossa Senhora do Rosário, a principal referência histórica de Ituverava, foi a segunda igreja de Ituverava, visto que a primeira foi edificada onde está hoje o Tiro de Guerra 02-058, com título de Igreja Matriz Nossa Senhora do Carmo, onde ali nasceu a cidade, tendo a região recebido o nome de “Largo do Carmo”. Portanto, com a construção da Igreja do Rosário pelos escravos, o vilarejo possuía o Largo do Carmo e o Largo do Rosário. Posteriormente, a Igreja Nossa Senhora do Carmo se transferiu para onde está hoje, na Praça Deputado Hélvio Nunes da Silva.
