Ituverava em Reminiscência #76

Catharina Bombig França

Uma verdadeira aula de História de Ituverava, contada pela esposa do fundador do Jornal Cidade de Ituverava

Família Humberto França – Reunião de família por ocasião de Natal: José P. França, Joaquim França, Thereza França, Luís França, Moacir França (no colo), Maria Luiza, Maria França, José Luiz Falleiros, Aparecida F. F. Ribeiro, Antônio Falleiros, Rubens França, Etelvina França Falleiros, Carolina M. França, Humberto M. França (no colo), Antônio França, Francisco B. Falleiros, Neuza França. Sentados: Maria Burim França, Humberto França e Dona Nenzinha França

07/04/1984

Tivemos a satisfação de ouvir com muito carinho e atenção, Dona Catharina Bombig França, mais conhecida como Dona Rina. Ela completou, em maio de 1991, 102 anos. Portanto, em 1910 estava em plena juventude com 21 anos de idade.

Filha de Luiz Bombig e dona Quintilia Bombig, ambos falecidos em Nuporanga, casou-se com o Sr. Humberto França, que era gráfico do jornal “O Nuporanga”. Em 1908 transferiu residência para a cidade de Orlândia, onde seu marido foi trabalhar no jornal “A Notícia”, de propriedade de Domingos Cividanes, e levou sua primeira filha, Maria, nascida em Nuporanga.

Em Orlândia, nasceram mais dois filhos: Nenzinha e Moacir. “Assim é a minha filha Nenzinha. Nasceu no mês de abril, um mês antes do cometa Halley passar (1910). Não tenho muito o que falar, porque estou um pouco esquecida, mas sei que vimos a ‘estrela’ brilhando no céu. Olhávamos para o céu com medo e até com desespero.

Diziam que o mundo ia acabar, que as crianças nasceriam aleijadas e tantas outras coisas. Todo mundo esteve assustado e curioso ao mesmo tempo. Grande parte do povo procurou ficar em casa, mas sempre curiosos. À noite olhávamos pela janela, ou íamos até a porta. Houve muita oração e velas acesas.

Nós morávamos numa casa abaixo da Estação Mogiana. O França, meu marido, não se impressionou muito. Achava que o fenômeno era natural e ficou contente quando tudo passou e não aconteceu nada de ruim.

Depois, com a chegada dos jornais de São Paulo, lendo e relendo o noticiário, ficamos informados. Nessa ocasião, eu estava de resguardo. Até 1940, mais ou menos, os médicos tinham esse cuidado.

Mas como ia dizendo, na noite esperada pelo cometa, levantei-me para dar uma olhada nas crianças, dei uma espiada pela janela e vi uma grande estrela de rabo comprido brilhando no céu. Fiquei com medo, mas foi muito bonito.”

Em 1912, Humberto França estabeleceu-se em Sales Oliveira com sua gráfica, e fundou o jornal “O Sales de Oliveira”, em cuja tiragem eu (Catharina) dava uma mãozinha, pois não tínhamos muitos empregados.

Aí nasceu mais um filho, que recebeu o nome de Jair. Em meados de 1913, França recebeu um convite do amigo Durval Barbosa, que era contador da Câmara de Ituverava, para fundar um jornal nesta cidade, que era de futuro e estava em progresso.

E Catharina continuou sua estória.

“Acertadas as bases de contrato, aqui chegamos vindos de Sales Oliveira, no começo do mês de maio de 1914. Chegamos pelo trem da Mogiana, puxado pela locomotiva que tinha apelido de “Maria Fumaça”, pois seu combustível era lenha.

A nossa família já estava grandinha, o França, eu e mais quatro filhos. Na estação tomamos o carro de praça do senhor Miguel Velho e descemos pela

Família Humberto França – Reunião de família por ocasião de Natal: José P. França, Joaquim França, Thereza França, Luís França, Moacir França (no colo), Maria Luiza, Maria França, José Luiz Falleiros, Aparecida F. F. Ribeiro, Antônio Falleiros, Rubens França, Etelvina França Falleiros, Carolina M. França, Humberto M. França (no colo), Antônio França, Francisco B. Falleiros, Neuza França. Sentados: Maria Burim França, Humberto França e Dona Nenzinha França Rua dos Carros, poeirenta e cheia de buracos, mas na ocasião o senhor Miguel disse que a Av. Glicério estava pior.

O trajeto levou meia hora. Fomos morar na casa que ainda existe (em partes), ali na antiga Rua Municipal, hoje Rua Getúlio Vargas, ao lado da residência de Ada Cavalari. A frente da propriedade vinha até a metade da calçada. O prédio era de propriedade do senhor Antonino Campalena, que no ano seguinte tornou-se meu compadre, porque batizou Luizinho, meu primeiro filho aqui nascido.

Como disse, Humberto França veio para cá atendendo ao pedido do senhor Durval Barbosa, que era advogado mas também trabalhava na Câmara, com a qual firmou contrato para publicar os atos municipais (150$000 por mês). A gráfica foi transportada da Estação até a nossa casa pelo carroceiro João Barion, que na sua tropa tinha uma mula chamava “Pachola”.

O transporte foi demorado e cheio de imprevistos. Depois de tudo arrumado, no dia 31 de maio de 1914 veio a público o primeiro número do semanário “Cidade de Ituverava”. Até certa época, eu também ajudava na impressão, com a minha filha Maria e mais tarde o Moacir e Luizinho. Com o França, diversos rapazes aprenderam a arte gráfica, o Pequetito, Agostinho dos Santos, José dos Santos, Miguel Camilo e outros. Inclusive o Adhemar Cassiano, que trabalhou com o Agostinho dos Santos, que fundou a “Folha da Semana”. Ficou conosco muito tempo, e temos amizade conservada até hoje.

O jornal esteve com Humberto França por 40 anos, e foram anos de luta, muitas incompreensões, mas também muitas glórias. Tudo que meu marido pôde fazer pela cidade ele fez, principalmente naquela época em que tudo era tão mais difícil.

Escola, por exemplo, tínhamos somente o Grupo Escolar “Fabiano”, onde só estudavam além do primário, os filhos de fazendeiros, que podiam mandá-los para Ribeirão Preto ou São Paulo. Hoje, felizmente, Ituverava está de parabéns, pois além de quatro jornais e quatro colégios, tem até Faculdade e depois bons hospitais.

Estou contente, pois a “Cidade de Ituverava” ainda está sendo publicada, hoje sob a direção de Fernando Cordaro, filho do Nardo Cordaro. Agora em 1984 o jornal completará 70 anos de existência. Com a transferência do jornal em 1954, o França ficou somente com a livraria, que me parece ser o estabelecimento mais antigo da cidade. A nossa luta foi sempre muito grande, em todos os sentidos. Com a família grande, a gráfica tinha pouco serviço, o jornal nunca deu lucro e a livraria vendia pouco.

A política era violenta. Chegaram a formar dois partidos do PRP. O Cel. Irlandino de um lado e Cap. João de Lima de outro. Havia muitos crimes e por aqui passavam desordeiros. Houve um fato que ficou célebre: o crime do Zeca Luiz, que foi assassinado no jardim da Praça 10 de Março, a qual antigamente era chamada de “Quadrado”, pois havia calçada só em volta e era cercada de arame liso.

Me lembro das farmácias do Villar, do Mário de Carvalho, do Augusto Leite, e havia a “farmácia dos pobres”, do farmacêutico Marcos Ferreira de Araújo, isso lembrando das primeiras até 1920.

Quanto aos médicos, na época em que aqui chegamos me lembro do Dr. Soares, que hoje denomina a nossa principal avenida. Além do Dr. Sátiro, Dr. Tedesco, Dr. Forjaz, Dr. Antônio Teixeira, Dr. Prata, e também o Dr. Gaetano, que esteve na 1ª Guerra Mundial de 1914/1918.

Quando aqui chegamos, foi na época em que estourou a 1° Guerra Mundial. O Brasil também entrou, e o Dr. Soares era Capitão e médico da Marinha. Embarcou para o Rio, e felizmente veio lutar juntamente com os colegas contra a Gripe Espanhola.

Não tínhamos hospitais, havia muitos indigentes na rua. Melhorou quando o senhor Misael, Aristides Leão, Messias Alves e outros, fundaram a “Casa dos Pobres”, que foi o primeiro hospital e abrigo dos pobres e que prestou muitos bons serviços.

Mais tarde veio a Santa Casa, o Hospital São Jorge e o INPS, e assim as coisas melhoraram como todos já sabem. Também tivemos o Posto de Saúde e o Posto de Puericultura para as crianças.

Ituverava foi grande produtora de café e, por isso, para cá vieram os colonos italianos, portugueses e japoneses. O café era transportado em carros de bois. O comércio foi desenvolvido pela colônia síria e libanesa. Os donos das máquinas de benefício do café da época, que me lembro, eram do compadre Jacinto Fernandes, que tinha sua instalação onde hoje estão as propriedades do Nenê Gato, a do Major Vitor, na avenida onde está a Matel. O Remo Massi também teve uma. Nas fazendas tinham e outras aqui foram instaladas, mas não lembro dos nomes.

Era costume, à tarde, todo mundo sentar em frente à residência, lá pelas 6 da tarde até as 8 da noite, onde reuniam vizinhos e filhos e comentavam principalmente o nascimento de mais um. E eu tinha um a cada um ano e meio, e a parteira era a dona Senhora, que quando encontrava dificuldades mandava chamar o Dr. Soares. Aqui nasceram oito filhos, com quatro que trouxe eram 12. Faleceram quatro e felizmente oito aí estão, graças a Deus, bem encaminhados. Também participaram do desenvolvimento da cidade.

Depois que o França faleceu, o que nos entristeceu muito, a livraria continuou com o Joaquim, que todos conhecem pelo apelido de Kiko. A livraria e o jornal “Cidade” agora em 1984 completam 70 anos de atividades.

Assisti os melhoramentos de água, luz, esgoto e calçamento, como também do embelezamento da cidade. Na livraria, enquanto me foi possível, trabalhei e vendi muitos livros, cadernos e lápis para a meninada que hoje está aí formada em diversas atividades.

Hoje, quando vou até a porta da minha casa para apreciar o movimento da Avenida, a todo tempo sou cumprimentada pelo pessoal, que me dispensam atenção. Nem sempre de momento eu os reconheço, mas assim que as identifico, fazemos um pequeno retrospecto de Ituverava antiga: são professores, médicos, farmacêuticos, Chiquinho, Paulo Neto, Miguel Daur, Luiz Gambi, Euriquinho, advogados empregados no comércio, costureiras, enfim, gerações e gerações de pessoas que atendi no balcão da livraria.

Ainda há pouco recebi a visita de Francisco Carlos, que é filho do antigo relojoeiro, José Carro, assim conhecido e que morava lá no Largo do Carmo. Também dentre muitos sempre tenho recebido a visita do Zé Carneiro.

Nesse vai e vem entre as coisas boas e ruins, sinto-me feliz em ter assistido a homenagem que fizeram para o França no Dia da Imprensa, quando comemorou-se o centenário de seu nascimento. Meus familiares e eu somos muito gratos por todas as manifestações que recebemos e que foram prestadas ao meu marido, quer pelo município, Estado, Colégio e povo de Ituverava.

Estou feliz pela minha participação nas coisas da cidade e pela respeitável prole que dei ao país, composta de 12 filhos, 17 netos, 17 bisnetos e seis tataranetos.

Muitos outros fatos teria para contar, mas deixo um pouco para os outros da minha idade que saberão discorrer sobre os prédios antigos, procissões e festas religiosas, Largo do Carmo, a Revolução de 1932 etc”.