Ituverava em Reminiscência #71

Abastecimento de água

ÁGUA – ESGOTO – CALÇAMENTO, eis a trilogia importante e necessária para toda cidade

ÁGUA

“Volta ao passado” é o título do artigo do saudosista Dr. Fábio Barbosa Lima, ituveravense por adoção, publicado no Jornal “Cidade de Ituverava” de 09/07/1939 do qual destacamos alguns trechos por se tratar do assunto em tela, e começa assim:

“14 de julho de 1893. A pequenina cidade do Carmo da Franca, que dormita embalada pelo canto contínuo e doce da cachoeira, está engalanada para uma grande festa. Desde muito cedo os  festejos: a banda musical, regida pelo Cap. Firmino, já percorreu as seis ruas e as duas praças da cidade. Mal o José Marques de escada ao ombro apagara o último lampião, eis que a cidade ficara a noite toda iluminada, extraordinariamente.

Uma salva de 21 tiros, às 5h, despertou os carmelitanos, e o Pe. Zacome mandara repicar, festivamente, os sinos da Matriz. As ruas todas enfeitadas por bandeirolas de papel de cores várias e arcos de bambu estavam garridas e apinhadas de povo. Um verdadeiro encanto! Um mimo! Que muito trabalho dera ao secretário da Câmara Tel. Joaquim de Cerqueira César, que foi eficientemente auxiliado pelo Christiano, pelo Vida, pelo saudoso Antônio Bueno, pelo Pepino Campanella e por outros rapazes e pelas senhoritas Sinhazinha, Izaura, Candinha, Zequinha, Maria Soares e outras tantas.

O Cel. Augusto não dava sossego ao seu mano, o nosso bom e velho amigo Antônio Bello que, com o José Augusto assumiram as responsabilidades de distribuir os visitantes pelos vários alojamentos. O vereador Joaquim Benedito do Amaral, em sinal de regozijo, permitiu que seu primeiro caixeiro, o Chico do Serafim (Francisco Marcolino da Luz) faltasse, pois era figura indispensável na banda de música, com seu luzidio saxe. E por que tudo isso? Pois inaugurava-se o abastecimento de água da cidade.

Dois chafarizes eram colocados no centro dos Lagos do Carmo e do Rosário para o abastecimento dos pobres. Os ricos e remediados fizeram instalações. Ao escrever estas linhas tenho um escopo: apelar para o atual prefeito, filho desta terra (quando este artigo foi publicado, era prefeito da cidade o Sr. Balduino Nunes da Silva, 1939), descendente de sua gente boa, que volte suas vistas para o chafariz do Largo da Matriz e o conserve como monumento histórico e não fique ali desprezado, depois de ter mitigado a sede daquela gente que foi nossa. E por quê? Para que saibam todos que Ituverava não era o que dizem, um covil de relapsos; mas sim uma terra ansiosa de progresso, perdida nos socavões ribeirinhos do Rio Grande”.

Pode crer o Dr. Fábio Barbosa Lima, que nos vê do além, que do histórico Largo do Carmo, o que sobrou foi justamente o chafariz, marco da inauguração do primeiro serviço de abastecimento de água. Também o do Largo do Carmo está de pé, e ambos têm merecido a atenção dos nossos administradores para que sejam preservados. O chafariz do Largo do Carmo, único marco que se refere o Dr. Fábio Barbosa Lima, na placa lê-se a seguinte instrução: “À benemérita corporação municipal: Cel. Augusto Simpliciano Barbosa, Cap. Ezequiel Ferreira da Silva, Joaquim Benedito do Amaral, Cap. Antônio Jacinto de Freitas, Cap. Silvério Carlos da Silva, Cap. Francisco cândido de Souza. – Homenagem do povo – 14/07/1893.

Esse serviço, inaugurado em 14 de julho de 1893, era trabalho dos nossos homens dirigentes que, em 1885, solicitaram à Assembleia Provincial um auxílio de 1:500$000 (um conto e quinhentos mil réis) para procederem a canalização do precioso líquido e o fornecimento aos habitantes do Carmo da Franca. A esse respeito, vai transcrita a nota publicada no Jornal “Justiça”, editado na Franca, e constante às fls. 61 do Livro “Crônica de Ituverava”.

“No Jornal “Justiça”, também da Franca, cuja data foi recortada, mas que deve ser de fevereiro de 1885, há uma notícia sobre o Carmo da Franca que assim se inicia: “Os habitantes dessa importante localidade acabam de dirigir uma representação à Assembleia Provincial solicitando a concessão de uma cota de 1:500$000 para ser levado a efeito à obra urgentíssima da canalização da água ali.” E continua o jornal francano: “Transcrevemos, da representação, os seguintes tópicos:

“A canalização d’água é de suma vantagem nesta freguesia e os habitantes há muito lutam com os males provenientes desta falta. Aliás, tão fácil de remediar, se for concebido o auxílio que pedem. Com uma cota tão avultada, a população carmelitana realizará a obra, e o “status quó” traz inconvenientes tão grandes que afeta a saúde dos moradores e prejudica um clima salubre, originando moléstias que afastam deste lugar grande número de pessoas que, sem isso, aqui pretendiam estabelecer-se. Graças à iniciativa popular, já está quase concluída a cadeia desta localidade, obra que abona de modo inequívoco a boa vontade de seus habitantes; e é justo que, por sua vez, os representantes desta província e máxime os deste distrito, lancem mão de sua munificência em prol de um melhoramento que há de trazer incalculáveis vantagens para esta freguesia”.

Mas… a respeito desse primeiro serviço de abastecimento de água, não tivemos em mãos documento algum. Entretanto, consta que o mesmo era feito por um rego tirado do Córrego Lavapés, cujo serviço não satisfazia plenamente. Dado ao crescimento da cidade que se fazia notar, e a necessidade de maior abastecimento, a 11/06/1908 é lavrada a escritura de aquisição por parte da Prefeitura Municipal a Joaquim Francisco Menezes e José Bernardino Ferreira, de uma nascente de água.

A escritura foi transcrita às fls. 7 do Livro 3-A, transcrição n° 1.463. Tabelião Cap. Euclides Barbosa Lima e registrada a 09/01/1909, cuja descrição é a seguinte: “Um manancial de água da cuja nascente é localizada em um capão de mato, à margem direita do córrego referido e é situado na Fazenda Capivari da Mata de propriedade de Joaquim Francisco de Menezes e José Bernardino Ferreira, como também o uso e gozo do manancial supra mencionado pertencente aos segundos transmitentes”.

A necessidade desse importante melhoramento já não podia se alongar, pois diversos fatores o exigiam: densidade demográfica, proliferação de enfermidades etc. Havia nos quintais de cada residência uma cisterna para suprimento de água, e havia as “cisternas” que abasteciam os vizinhos – (uma delas, de que os vizinhos se serviram até depois da década de 1930; foi da residência do Sr. Aurélio F. Vidal) – o problema começou afligir o povo, uma vez que o atual fornecimento de água já não atendia o consumo.

Esse fato teve seu ponto culminante quando faltava o precioso líquido com frequência, obrigando a Prefeitura Municipal a tomar providências a respeito. Adquiriu esta o manancial já descrito, empréstimo de 100:000$000 com o capitalista Cel. Crisógono de Castro, residente em Franca, e contratou a nova canalização. Para tanto, foram sancionadas as Leis 57 de 13/09/1907 e 62 de 08/07/1908, as quais autorizavam o levantamento de empréstimo, emissão de letras no valor de cem mil réis cada uma e assinatura do contrato respectivo, cujo teor vai abaixo e se acha transcrito no Livro de Registro de Contratos n° 1 da Prefeitura Municipal, no ano de 1899.

Dois chafarizes eram colocados no centro dos Lagos do Carmo e do Rosário. Na foto o Chafariz na Praça do Largo do Rosário o outro ainda pode ser visto no interior do Tiro de Guerra, antigo Largo do Carmo, onde foi o início da cidade e a primeira Igreja Nossa Senhora do Carmo que mais tarde se transferiu para o Centro. Curioso que os dois antigos chafarizes estão na mesma linha…