Ituverava em Reminiscência #66

O Calçamento da cidade – Parte 1

Data do século passado o problema da poeira em nossa cidade. Já em seus primórdios de existência, como nos diz o Dr. Joaquim de Paula Ribeiro em sua crônica publicada no jornal “Cidade” de 24/11/1945, que o grande naturalista francês Augusto de Saint Hilaire, viajando através de sertões, observando a terra e sentindo o povo, teve o ensejo de tocar nesse rincão pátrio – Pouso Alto, Carmo da Franca.

Escreve o naturalista: “Pelo dia seguinte ao da minha chegada a Pouso Alto, desencadeou-se um dos mais terríveis tufões por mim até então presenciado; turbilhões de pó vermelho escuro nos envolvendo no meio do rancho, cobrindo nossas bagagens”. Isso em 1818.

Eis aí o que, dentre outras coisas, viu o sábio francês em nossa terra: o pó; a terrível poeira que flagelou nossa gente por muitos e muitos anos…

O movimento pró-calçamento teve início desde que fora instalada a rede de água, com a esperança da implantação do serviço de esgotos sanitários – isso data de 1893.

Daí em diante – 1914 a 1929 – o povo sempre reclamando à imprensa, exigindo dos poderes municipais esse melhoramento, uma vez que Ituverava ia atravessando uma fase de progresso e a cidade crescia rumo à Estação da Cia. Mogiana de Estrada de Ferro.

Ante os reclamos insistentes, a Câmara Municipal aprovou projeto de lei que foi promulgado pelo então prefeito Balduíno Nunes da Silva em 10 de julho de 1929, de n° 160, autorizando o município a contrair – dentro ou fora do município -, um empréstimo da quantia de mil contos de réis. O empréstimo destinava-se ao resgate da dívida fundada, execução dos serviços de água, esgoto, calçamento e embelezamento da cidade. Desse empréstimo nada sobrou para o calçamento.

Como já vimos, os serviços de água e esgoto foram executados ao longo dos anos 1893 e 1948.

Nesse período, tivemos a Revolução de 1930-1932, e o país participando da II Guerra Mundial. Tivemos uma sucessão de prefeitos, eleições em 1934, golpe de Estado em 10/11/1937 e o novo regime denominado Estado Novo, que teve como ditador o Dr. Getúlio Dornelas Vargas; fatos esses que ocasionaram atrasos na execução das obras.

Os prefeitos eram nomeados pelo Interventor Federal do Estado. Em 1942, é nomeado para o cargo o Sr. Gilberto Ribeiro Barbosa, que providenciou a irrigação das ruas e o apedregulhamento. Em 1944, o Sr. Gilberto licencia-se, e é nomeado para substitui-lo o Sr. Dr. Cláudio Guimarães César, que também melhorou algumas ruas e manteve o serviço de irrigação a fim de debelar a poeira.

As ruas eram providas de sarjetas para o escoamento das águas pluviais, enquanto não entrava em funcionamento o serviço de esgoto. Era costume, até certa época, cada morador ou comerciante molhar a frente de sua casa com esguicho ou, mesmo com uma pá improvisada, jogar a água da sarjeta para a rua a fim de combater a poeira.

Chegamos em 1945. Em julho, o Jornal “Cidade” noticia que o Conselho Adm. do Estado aprovou a lei dispondo sobre a taxa de calçamento. (OBS: Nessa ocasião não tínhamos Câmara de Vereadores e nem Assembleia Legislativa).

O dispositivo legal foi o Decreto-Lei n° 54 de 04 de agosto de 1945. Com essa lei elaborada pelo Dep. das Municipalidades e com tudo previsto para ser aplicado na oportunidade, aguardava-se entretanto a conclusão do esgoto que se iniciava.

O problema continuava, quando é chegado o período eleitoral. Por força de lei, é afastado do cargo o Sr. Dr. Cláudio Guimarães César, e assume a Prefeitura até que se realizem as eleições marcadas para 02 de dezembro o Sr. Dr. Humberto de Andrade Junqueira.

Realizadas as eleições e terminado o ano de 1945, adentramos 1946 com o pedido de exoneração do Sr. Gilberto R. Barbosa, que se achava de licença. Assume a Prefeitura por nomeação o Sr. Marcionílio Trajano Borges que, conhecedor do problema, procura amenizá-lo com irrigação das ruas e apedregulhamento no período de estiagem.

Mas quando chegavam as chuvas, tínhamos outro problema: a lama. Sendo que em determinadas ruas formavam-se verdadeiras lagoas. Em novembro de 1946 o povo, insatisfeito com a paralisação do serviço de esgoto e também com o irregular fornecimento de energia elétrica (que faltou dois dias consecutivos), insurgiu contra a Empresa Força e Luz de Ribeirão Preto, havendo uma manifestação de desacato por uma massa popular de mais de 800 pessoas fazendo o enterro simbólico da empresa.

Exonera-se do cargo o prefeito Sr. Marcionílio Trajano Borges, que é substituído pelo Sr. João Athayde de Souza, conhecedor da necessidade de pavimentação da cidade. Tomou posse do cargo dia 05/12/1946, quando os Estados e os municípios estavam em plena campanha eleitoral para as eleições de 19/01/1947, quando seriam eleitos deputados federais, estaduais e governadores. Foi eleito governador do Estado o Sr. Dr. Adhemar de Barros. Empossado que foi, exonerou todos os prefeitos nomeados anteriormente a 14 de março. (Continua na próxima edição.)