Ituverava em Reminiscência #64

Rio do Carmo, o rio de Ituverava

Sem dúvida, o Rio do Carmo é rio de Ituverava, que dele retirou até seu nome atual. Mas sua influência ficou nisso, pelo menos para a cidade.
Nascido a 900 m de altitude, no reverso da costa do Planalto Pedregulho-Franca, percorre quase 100 km até sua foz no Rio Grande, a pouco menos de 500m de altitude junto à ilha do Roberto e Corredeira da Espinha. Seus formadores são os ribeirões Corrente e Cristal e tem três afluentes na margem direita, de curta importância, os ribeirões Capivari, Ponte Nova e Bandeira.
É um típico rio de planalto de regime pluvial tropical, com cheias no verão e vazantes no inverno, com débito que desconhecemos, mas poucas expressivas em virtude da sua declividade média de 40m/km.
A observação de seu perfil longitudinal permite indicar que seu curso inferior se inicia pouco antes de receber o ribeirão da Bandeira, exatamente quando é atravessado pela curva de nível dos 500m. Daí até a foz, a 20 km, o rio corre remansoso numa planície pantanosa que chegava a se alargar nas cheias do Rio Grande. Forma algumas lagoas de existência temporária e este leito maior é limitado
curva dos 500m que o acompanha nas duas margens. A Corredeira da Espinha deve ser a responsável pelo nível de base relativamente estável deste curso inferior e pelo depósito de aluviões.
O curso médio, numa extensão aproximada de 15 km, bem como o curso superior de quase 65 km, nada apresentam de especial senão a Cachoeira do Inferno ou do Carmo, que os separa. A ruptura do perfil é de cerca de 5 metros, quando o rio encontrou um derrame de basalto e não conseguiu escavá-lo com a mesma facilidade. Saint-Hilaire considerou-a inexpressiva e a qualificação é perfeita. Todavia a sua proximidade do casario urbano chama atenção sobre ela e sua denominação tupi – Santo Brilhante – passou à cidade.


As furnas
Se o rio propriamente não se distingue de tantos outros do Planalto Ocidental Paulista, os seus dois afluentes mais importantes da margem direita, o Ponte Nova e o Bandeira, percorrem um trecho de furnas de alto interesse, mas de difícil explicação.
Na furna do Ponte Nova, o pequeno ribeirão que vem de altitude de 900m, desce rapidamente por sucessivos degraus até 700m na altura da Fazenda do Sobrado quando então penetra numa garganta de paredes abruptas de 225m de altura, separadas por menos de 100m de uma a outra margem e que se estende por cerca de 10 km até alcançar os 525m, a cerca de 5 km de sua foz no Rio do Carmo.
Do alto da vertente não se distingue o leito do rio, no fundo do canyon, em virtude da copa das árvores que ali nascem e pelo estreitamento das margens.
Deve reinar aí, portanto, permanente escuridão que é diminuída no meio do dia quando os raios solares caírem a prumo.
Um outro fato que não pode ser esquecido é a existência da Corredeira da Espinha, na foz do Rio do Carmo. É sabido que qualquer corredeira é a consequência de uma cachoeira que foi desgastada e que poderia estar a um nível mais alto.
Ora, como o nível de base do Rio do Carmo e seus afluentes é tomado a partir do nível do Rio Grande e como este nível abaixou pela erosão da cachoeira, então o seu nível de base passou a ser outro e isto significou uma retomada do escavamento do leito tanto mais exacerbada quanto maior tinha sido o desnível.
Se o desgaste dessa antiga cachoeira do Rio Grande já poderia ter resultado no canyon, ele poderia ter sido complementado pelo levantamento das bordas da bacia aumentando mais ainda o desnível, forçando maior velocidade de escoamento das águas e aumentando seu poder de erosão.
Todavia, antes desta retomada do escavamento do leito, o Rio Grande deve ter demorado tempo bem longo para desgastar sua cachoeira, permitindo aos afluentes passar pela maior parte do ciclo de erosão, no mínimo pela juventude e maturidade.
Se um rio, na juventude, apresenta vales fechados e muitas quedas d’água, o trabalho de escavamento do leito e de modelado das vertentes vai destruindo as cachoeiras e abrindo os vales, suavizando o conjunto que tende para as reformas aplainadas na maturidade e chega na velhice a formar os planeplanos, que as cristas costumam ter altitudes idênticas.
Voltando à juventude, porque o nível de base se alterou, o rio voltará a ter vales fechados, mas as cristas, no alto das vertentes, estarão aplainadas, provando o ciclo anterior. Como de cada ciclo sempre restam testemunhos, pode-se falar num relevo policíclico, cabendo ao observador atento a identificação de cada um, pela comparação do nível das cristas e dos patamares que restaram das antigas planícies de soleiras.
Como o Morrinho das Pedras e outros são testemunhos, não temos dúvidas em afirmar que a região é de relevo policíclico, com fase atual de juventude.
Por último, gostaríamos de acrescentar que o Rio do Carmo só não apresentava um canyon porque a Cachoeira do Inferno ou do Carmo barrou a retomada do escavamento do seu leito, criando um perfil de equilíbrio provisório a que se acresce o fato de menor altitude da região e que o ribeirão Ponte Nova é a divisa municipal entre Ituverava e Buritizal, exatamente pela furna.