Sobre o ensino atual…

Cidade de Ituverava – Pesquisa
Publicado em 30/08/1976
Participações: Profa. Maria Aparecida de Paula Cavallari Palhares “Pida” (Supervisora pedagógica lotada na Delegacia de Ensino de Ituverava) e Ronaldo Lázaro Medina (aluno do 3° ano do 2° Grau)
Mais uma vez a “Cidade de Ituverava” (um dos jornais da época) está promovendo uma pesquisa. Em nosso último número, pesquisamos a respeito de alguns fenômenos espíritas, o que causou enorme repercussão.
Hoje, o assunto é por demais debatido e comentado. Trata-se do Ensino atual, moderno, que está dando o que falar e comentar. Para tanto, fomos buscar duas pessoas de real destaque nos meios educacionais, culturais e estudantis de Ituverava.
Fomos até a Fazenda Guanabara e, da maneira mais gentil, a professora Maria Aparecida de Paula Cavallari Palhares (Pida) colaborou conosco para levarmos a bom termo esta nossa pesquisa. Do mesmo modo, fomos em busca de um jovem muito inteligente e que leva a sério os seus estudos para, também, dar a sua contribuição para a “Cidade de Ituverava – Pesquisa”. Aos dois, os nossos agradecimentos.
Vamos à pesquisa: O Ensino atual, ao que parece, está desacreditado por grande parte de pais de alunos, pela imprensa, e mesmo por grande número de professores. Por que isso, dona Maria Aparecida?
“Sim, parece que há um clima de descrédito no Ensino, seja por parte dos pais, da imprensa e mesmo por parte dos educadores em geral. Entretanto, este descrédito no Ensino é decorrente: do período de transição que atravessamos motivado pela aplicação do previsto na Lei 5.692/71. Escola única de 1° Grau de primeira a oitava série e de 2° Grau com “certo caráter profissionalizante”.
Ora, para fazer-se algo que nos parece tão simples à primeira vista e depara- -se com a destruição de uma “estrutura” antiga e arcaica com base em uma lei já revogada, a 4.024/61, o que significa acabar com os antigos “primários”, “ginásio” e “colegial” e substitui-lo pelo ensino de 1° e 2° Graus. Isto não é tão simples quanto parece à primeira vista.
Envolvendo a aplicação da Lei 5.692/71 existe interesses particulares, existe o “medo da mudança” comum em grande parte de educadores e pais, sem considerar que só a mudança leva à evolução e ao progresso. Existe o problema de movimentar os nossos recursos humanos “remanejando-os”, tirando-os então de uma situação a que estavam acomodados a longos anos como a mesma escola, o mesmo horário, o mesmo diretor etc.
Existe a necessidade de se obedecer à setorização da Lei 5.692/71, que veio principalmente descontentar pais (privilegiados) que estavam acostumados a colocar seus filhos em determinadas escolas públicas e com determinados professores escolhidos por eles mesmos, sem critério algum de organização de classes.
Ora, todas as vezes que “mudamos” algo, existe a transação e esta gera insegurança, descrédito e descontentamento. É a transição, pois, que leva a esta descrença no ensino atual, a meu ver”, expõe a supervisora pedagógica.
E vamos ao aluno agora. Perguntamos ao Ronaldo Lázaro Medina: quando você, numa prova tira o conceito ótimo (nota 10), até que ponto você acha que foi mérito seu ou falha do Ensino?
Ronaldo responde: “Foi mérito meu, pelos meus esforços e pelas minhas atenções dirigidas àquela determinada matéria. Até esse ponto foi mérito meu. Mas considerando que uma prova e os atuais métodos de avaliação não são eficientes, e de limitadíssima capacidade e amplitude no que toca a avaliação do estudante, já que uma prova possui características muito restritas quanto aos seus assuntos questionados e também muitas vezes são mal elaboradas nas questões, o meu merecimento fica reduzido a pouco em função desta terrível falha do nosso Ensino em meio a muitas outras falhas. Sabemos que uma prova não mede o conhecimento do aluno. Isto é uma afirmação, e serve tanto para alunos quanto para professores.
Sendo assim, eu creio então que fui mal avaliado e o meu mérito não foi grande. Embora os meus esforços tivessem correspondido à nota ou ao conceito. Talvez em um sistema de avaliação mais aperfeiçoado eu não tivesse aquela determinada nota ou conceito, e sentiria então que minhas atenções tivessem que ser aumentadas”, argumentou o aluno.
Retornemos à supervisora pedagógica: A mudança que está havendo no Ensino atual deverá atingir seus objetivos?
“Sabe-se que o Governo atual está empenhado em realizar a “Reforma do Ensino no Estado de São Paulo” a partir do ano de 1976. Convém lembrar que, como diz o grande educador Jorge Nagle: “São Paulo no que se refere à implantação de reforma do ensino foi uma falta de exemplo. Não acompanhando o seu desenvolvimento em todos o demais setores em que é ele, São Paulo, o pioneiro”.
Ou seja, ficamos de 1971 a 1975 tentando em vão reformar o ensino. A partir de 1975 surge-nos bem delimitadas as novas metas que nós educadores tentaremos alcançar e que foi alcançado”.
Continuaremos o assunto nas próximas edições, e lembrando que qualquer semelhança com tempos atuais é mera coincidência.
