Como era o policiamento em 1923

O ituveravense deve relembrar com muita saudade o tempo de sua infância aqui vivida… O Largo Velho, hoje já quase desaparecido… A Igreja de Nossa Senhora do Carmo, já demolida… (onde hoje está o Tiro de Guerra), a Cadeia velha… Saudades das pessoas que já não existem, e de tudo que o tempo implacável consumiu.
Ituverava de gente boa e humilde… Ituverava dos bailes familiares… Ituverava das serenatas ao luar, em noites de plenilúnio… Um dos episódios mais interessantes ocorrido lá pelo ano de 1923 e que marcou época, foi o seguinte: Havia na cidade, naquela época, vários vagabundos que não saiam das vendas e botequins, a beberem e a pedirem a todos que por ventura ou desventura eram forçados a entrar nestes estabelecimentos para fazer alguma compra.
Acontece, porém, que veio para cá um delegado de polícia bastante enérgico e que resolveu acabar de uma vez para sempre com os tais frequentadores de botequins. Para isso, organizou uma patrulha que percorria a cidade duas vezes por semana, prendendo os tais elementos indesejáveis.
No dia seguinte eles eram obrigados a carpir a rua e à noite eram recolhidos no xadrez. Eram soltos três dias após. Isto era um trabalho perdido, uma vez que os elementos nem bem eram soltos, lá iam para os mesmos botequins, reiniciando a mesma vidinha. Eram presos novamente, e a pena dobrava e até mesmo triplicava.
No início, havia um soldado que tomava conta dos presos enquanto eles carpiram as ruas. Mas, com o decorrer de algum tempo, notou o delegado que não havia mais necessidade de guarda. Assim é que de manhã o carcereiro abria as portas da prisão, entregava as ferramentas aos presos e lá iam eles sozinhos, para a limpeza da cidade, voltando à cadeia para o almoço e para a janta, e às seis da tarde para dormir. Cumpriam à risca o horário.
Um belo dia um preso de nome Inácio Barbudinho chegou atrasado para dormir, pois já eram mais de sete horas da noite. O carcereiro ficou furioso, pois desejava dar umas voltas pela cidade e, no entanto, fora obrigado a ficar esperando pelo retardatário. Quando Inácio Barbudo chegou, o carcereiro furioso bradou: – “Olha, seu vagabundo, outro dia que você chegar atrasado, tem que dormir na rua”. Isso aconteceu na Ituverava de outrora.
