Discurso pronunciado pela senhorita Georgette Chaebub, oradora da turma de 1952 dos professorandos da Escola Normal de Ituverava na solenidade de formatura realizada dia 17 de dezembro p. passado, no Cine Rosário

“O deslumbramento deste espetáculo magnífico, o esplendor de magia deste cenário, a irradiação espiritual deste ambiente, onde se expande e pompeia a flor da cultura vicejante de uma mocidade, é fruto de um labor continuado e resplandecente da alma jovem personificada nesta geração de novos professores.
Cujo pensamento aqui se eleva, na palavra do indicado para este mister, não com a galhardia de um destro manejador de ideias, mas como o que se desonera de um encargo como lhe consente a força e lhe permite o engenho. O que nos justifica é que não estamos aqui por um frio raciocínio de razão, mas por uma ardente manifestação de sentimento.
A figura do orador desaparece engrandecida ante a imensidade moral dessas perspectivas infinitas embora, como acidente transitório, na beleza deslumbrante deste espetáculo em que se enquadra. Assim, o que na minha oração vai surgir é apenas o sopro miraculoso do nosso entusiasmo. O que nela vai tremular é a chama ardente de nossa fé e de nossa esperança.
Reunidos neste movimento gratulatório de despedida de nossa vida escolar, onde festejamos a virtude do aprendizado que o clarão da cultura espargiu em nossas cabeças, esboçando os nossos destinos, porém esfumados nas sombras da distância. É que esta hora marca o nosso ingresso “para a alvorada, que sonora nos convoca para a agitação da vida que fremente nos arrasta!”.
É uma hora de alegria e responsabilidade; de agitação e impaciência; de entusiasmos e sofreguidão somente iguais da inspiração dos grandes e faustosos acontecimentos que o cultivo mudo dos gabinetes e o adestramento do raciocínio conduziram homens de letras e cientistas ao píncaro da glória imortal.
É a hora estelar que desponta em nossas almas, como a luta dos sacrifícios vivida pelo imortal Pasteur no discernimento de uma nova fase da medicina cujo alicerce foi calçado de luzes e ensinamentos, e propiciou à humanidade o conforto e segurança no combate às endemias; ou ainda como nos encantamentos de sua palavra de fé e cristandade, Vieira fortificava os espíritos pela convicção de seus magistrais sermões.
O professor tem a sua formação moral e cultural forjada no laboratório da doutrina que é a legenda de inspiração, obra exclusiva de amor, perseverança e experiência. Os poetas são os que sabem exprimir o ideal que a inspiração do povo acaricia; heróis os que podem realizar esse ideal. Sem a legenda, como poderíamos evocar a angústia do mísero ou perpetuar o heroísmo do pequenino?
Eis aqui o documentário de nossa profissão de fé. Eis aqui a legenda de nossa história que somente a posteridade revelará: ENSINAR. Deixar e seguir como as duas cláusulas de S. Pedro, os dois pólios da virtude: o corpo e o espírito. A primeira, deixar tudo; a segunda seguir a perfeição do espírito. Nesta última reside o testemunho mudo do professorado. Ilustrar a alma, preparar o raciocínio dando sutileza e ânimo às vicissitudes da vida, eis o objetivo imediato de nossa profissão de fé.
Repartir com os outros a sua riqueza pequenina e esta, em lugar de diminuir, de desaparecer, cresce e se avoluma cada vez mais. É o exemplo vivo e contrastante do Rio Jordão e do Mar Morto. Este cercado de areia e de silêncio fechou-se sobre si mesmo no maior e mais completo isolamento do mundo.
Toda a água que ali entra não sai; todo peixe que vem do Jordão perece no contato oleoso e pesado de suas ondas. O velho mar tudo quer para si e nada oferece aos outros; mas por isto mesmo a vida se extingue nos seus domínios, nenhuma vibração de existência lhe quebra a monotonia da superfície parada e os pássaros que por essas solidões se perdem, evitam de riscar as águas com a ponta da asa fugitiva.
É o símbolo do egoísmo. O Rio Jordão, entretanto, pequenino no seu curso e de volume líquido, se desenrola por vales e encostas, cantante e vivo, dando das suas águas tudo o de que a natureza e os animais necessitam. É o rio altruísta, é a vida que se comunica, é a existência que se renova continuamente numa perene mocidade.
Esta é a nossa legenda, a nossa função no seio da sociedade, distribuir ensinamentos, diminuir trevas. Meus senhores, minhas senhoras, meus colegas. Pensemos por um instante no regozijo desta hora estelar de nossa vida, acontecimento maior de nossa aspiração sem, contudo, nos determos. Deixemos tudo, orientados pelos ditames das duas cláusulas de S. Pedro, e sigamos resolutos no aperfeiçoamento do espírito, preparando a mentalidade das novas gerações.
O destino embora ainda não aclarado pelas ilusões fagueiras de nossa imaginação nos espera para o trabalho da inteligência e devotamento. Somos agora os novos soldados da sociedade. Temos pela frente um dever a cumprir. Evoquemos ao Todo Poderoso luzes beatificadas da bondade e energia e caminhemos em busca de nosso ideal na convicção de consegui-lo com desprendimento e sabedoria. Deixemos tudo e sigamos nosso destino.”