A Revolução de 1930 na história de Ituverava

Até o “crash” da Bolsa de Nova York, foi mais ou menos tranquila a situação política de Ituverava. Dominava, absolutamente, o Partido Republicano Paulista, com os velhos “caciques”, como eram chamados seus chefes, sendo eleitos e reeleitos tranquilamente, nomeando e exonerando autoridades e funcionários, sempre com o beneplácito do governo estadual. Basta comparar a propaganda para a eleição presidencial de 1930.
Enquanto a caravana governista, composta pelo Secretário do Interior e deputados Altino Arantes, Armando Prado, Firmino Pinto e Roberto Moreira, era recepcionada com banda de música, participava de um banquete de 80 talheres, com a orquestra do maestro Clínio Júlio D’Epiro e só às 10 horas da noite se dignava comparecer ao “Santa Cecília” para falar do eleitorado, seguindo após isso para Igarapava em trem especial o Dr. Paulo Paulista de Ulhoa Cintra, do Partido Democrático, mal tinham sua presença notada (02/02/1930).
Assim, quando irrompeu o movimento armado no Rio Grande do Sul e na Paraíba, as autoridades de Ituverava ficaram firmemente solidárias com o governo de Washington Luiz e tomaram todas as medidas necessárias para apoiá-lo. Criou-se a Guarda Municipal, “destinada a prestar os serviços de policiamento enquanto perdurar a ausência da polícia estadual, determinada pelo atual movimento subversivo, constando de tantos homens quanto sejam necessários” (12/10/1930) e o delegado de polícia, Dr. Gastão M. Maia, “faz saber a todos os bons paulistas que a partir de hoje, aceita voluntários, que aqui ficarão alojados e alimentados à custa do Governo do Estado e à disposição do mesmo” (12/10/1930). O prefeito, por sua vez, transcreve no jornal local o decreto de convocação de reservistas.
Em Ituverava, depois da formação da Junta Governativa, as coisas passaram sem muita pressa, embora a população estivesse acompanhando, a seu modo, os acontecimentos. Um comerciante, “com alegria revolucionária”, “visando colaborar com a revolução”, pediu que o trem que saía de Ribeirão Preto e chegava às 20 horas em São Joaquim, viesse pernoitar na cidade…
A Junta permaneceu até a nomeação do prefeito Alcino Parreira, farmacêutico, membro do Diretório local do Partido Democrático (07/12/1930), o que parece ter desagradado seus companheiros, pois duas semanas depois comunicava à população sua renúncia, sem tomar posse, “a bem do sossego e da tranquilidade das famílias ituveravenses, justamente alarmadas com as discórdias aqui reinantes” (21/12/1930). Sua renúncia não foi aceita, pois acabou empossado, para ser agredido logo após por um grupo de seis homens armados (04/01/1931).
O corolário natural da troca de posições dos grupos dominantes – a derrubada de autoridades e funcionários – iniciou-se com os da Polícia, foram nomeados Antônio Rodrigues de Oliveira, Severino Trigo, João Nunes da Silva e Manoel Inácio Barbosa, para os cargos de 1°, 2° e 3° suplentes de delegado e subdelegado, respectivamente. Continuou com os da Prefeitura, onde foram exonerados José Bonifácio de Matos Júnior, secretário, João Batista Lebrão, procurador, e Higino Tolentino Marcondes César, porteiro. Foram nomeados Anchieta José da Silva, procurador, e Alfredo de Pádua Carneiro, porteiro. Manteve-se, entretanto, o delegado de polícia que estava exigindo, com a máxima energia, salvo-condutos de todos que viajavam (16/01/1930).
Dentro do mesmo clima, a cidade aderiu ao movimento popular para ajudar o pagamento da dívida externa do país. A colônia síria organizou entre seus membros a primeira coleta que em 15 dias, rendeu a bela soma de 2:595$000 (440$000 provenientes de Miguelópolis) – 30/11/1930. Isso foi imitado pela Junta, com listas populares, das quais ficaram encarregados José Raphael da Silva, Clóvis Sandoval e João Francisco Borges.
A “pureza” da revolução exigia, porém, mais: foi aberta campanha contra jogos, especialmente o do “bicho”, e proibida a venda de bebidas alcoólicas a retalho, menos chopp e cerveja (23/11/1930). A participação ativa nas operações militares por parte dos ituveravenses foi, todavia, muito pequena, limitando-se à guarda de voluntários revolucionários da ponte Igarapava-Delta, citando-se Antônio Rodrigues de Oliveira, Ignácio Pereira de Sousa, João Francisco Borges, Pedro Gonçalves Filho e Manoel Inácio Barbosa (23/11/1930).
A instabilidade consequente e imediata à vitória da Revolução terminou quando foi escolhido para exercer o cargo de prefeito o senhor Cícero Barbosa Lima, aceito por todos os grupos, graças ao seu equilíbrio e ponderação (10/05/1931).
No Estado, contudo, a situação política tomava novo rumo, pois o velho Partido Republicano Paulista aliava-se ao Partido Democrático, pedindo ambos em manifesto político, a volta do país à Constituição e autonomia para São Paulo. Era a primeira nuvem da tempestade: começava a articulação dos paulistas, que desaguaria no 09 de julho de 1932.
A Revolução em Ituverava não ficou somente em atos cívicos. Era global e atingiu a Igreja. O vigário Padre Rulli, organizou Procissão de Penitência no dia 24 de julho, com grande afluência de fiéis, que rezavam pela cessação da luta fratricida.
Fez-se comício na Praça X de Março. Donativos continuavam se avolumando, agora dos sírios, principalmente dos gêneros alimentícios. No dia 23 de julho e sucessivos seguiram para Ribeirão Preto, ponto de encontro, os voluntários do Batalhão Nossa Senhora do Carmo. Para assistir às famílias dos “soldados da Lei que este município tem enviado”, o prefeito nomeou uma comissão de senhoras. Nova Procissão de Penitência é realizada com senhoras e senhoritas descalças, o que comove e abala a todos, pois agora vidas de moços de Ituverava estavam em jogo (31/07/1932).
Em fins de julho, o prefeito solicitou no prazo de 48 horas que todos os possuidores de carabinas “Winchester 44” e munições se identificassem, ao mesmo tempo em que a imprensa noticiava o ultimato dos generais Isidoro e Klinger ao Ditador Vargas, para que passasse o governo aos mesmos generais que o receberam de Washington Luiz.
Dinheiro e gêneros são arrecadados para as famílias dos voluntários pobres; um festival de arte é apresentado no “Santa Cecília” e realizado um jogo de futebol entre Jeriquara F. C. e América F. C., ambos com as rendas revertendo para o mesmo fim. O entusiasmo é mantido com o noticiário e artigos inflamados: comício silencioso de um milhão de pessoas no Rio de Janeiro, comunicados da Liga de Defesa Paulista, convites à mulher paulista, entrevista do Embaixador da Itália com o Ministro das Relações Exteriores, oferecendo-se como intermediário de paz.
Os donativos continuavam a afluir, pois ninguém se negava a doar. A Campanha dos Capacetes de Aço rendeu 1:875$000, mas os que contribuíram devem ter se entristecido, pois a Associação Comercial de São Paulo, que recebeu a importância, comunicou não poder entregar os capacetes 2° Cia. do Batalhão d’Oeste onde serviam os ituveravenses, porque a distribuição era feita pelo Comando Geral.
Em termos práticos, seriam 125 capacetes, a 15$000 cada um. Depois a campanha “Ouro para a Vitória”, com muitas doações, em troca de uma aliança de ferro; a do “Cigarro do Soldado Ituveravense”, patrocinada pela Prefeitura; a dos “Metais para a Vitória”, mobilizando a infância.
Novo Batalhão, o “Batalhão Ituveravense”, formado de homens solteiros que não podiam seguir para as frentes de combate, foi organizado para auxiliar o “Batalhão Salto Belo”, incorporando, imediatamente, 32 voluntários. As retretas da Banda Municipal, no coreto do jardim da Praça 10 de Março, costumeiras aos domingos, foram suspensas pelo prefeito, “por isso que não é oportuno tal divertimento, enquanto valorosos voluntários da nossa terra sofrem as agruras e rigores a que estão expostos, oferecendo suas vidas em holocausto pela Redenção da Pátria”.
Um proprietário reduziu em 50% os aluguéis de todos os seus prédios (Cap. João Evangelista e Lima), os funcionários municipais fizeram doação de um dia de serviço e o vigário organizou romaria à Capela da Aparecida do Salto: todo o município se integrara na luta.
Enquanto a cidade fazia o esforço de retaguarda, os rapazes do Batalhão Nossa Senhora do Carmo viviam sua epopeia. Os voluntários receberam instrução militar sumária em Ribeirão Preto, no quartel da Polícia Militar, sendo incorporados à Brigada do Sul sob o comando do general Ataliba Leonel e o Batalhão de Infantaria de Botucatu sob comando civil do Ten. Cel. Leonidas do Amaral Vieira e comandante militar major Manoel Marques.
A viagem para Botucatu foi feita em carro-gaiola e tiveram péssima recepção, pois foram considerados verdadeiros bandidos, com portas e janelas batidas à sua passagem. Comunicaram o fato ao comandante e alguns foram visitar as redações dos jornais e estação de rádio para esclarecer a população.
Depois, dois ou três foram mandados para o setor de Mococa, ficando adido ao 2° Batalhão da Coluna “Romão Gomes”, até o final da Revolução. Os que preferiram a cavalaria e ficaram concentrados em Miguelópolis, seguiram para o setor de Eleutério.
O batismo de fogo ocorreu, segundo noticiou “A Cidade de Ituverava” (28/08/1932) em “cerrado combate de 12 horas ininterruptas, com ação das mais brilhantes, portando-se com inexcedível bravura. Felizmente não se verificou nenhuma baixa; todos se acham dispostos a novos contatos com o inimigo. Os seus superiores mostram-se satisfeitos com o resultado do primeiro encontro”.
De Mococa, retiraram-se para São Sebastião da Grama, São José do Rio Pardo, Casa Branca, Itobí, Igaraí, e finalmente Campinas e São Paulo. Os episódios pitorescos foram numerosos, como ocorrem sempre em operações de guerra. Por exemplo, o susto de quem sai da linha de frente e ao regressar, não sabendo ou esquecendo a senha, é tomado por inimigo e recebido a bala; ou a vontade de comer um queijo visto numa fazenda abandonada, retornar para buscá-lo e ser surpreendido pelo inimigo e preso; ou ainda a ira de um comerciante, por ter seus móveis estilhaçados por rajadas de metralhadora de um avião, como aconteceu em Campinas.
Naturalmente, o retorno foi melancólico, mal conseguidos lugares no segundo trem especial que saiu da Estação da Luz em São Paulo, com viagem retardada em virtude das constantes revistas dos soldados da Ditadura em cada estação.
A despedida só ocorreu mais tarde, quando foi celebrada missa em ação de graças, após a qual os voluntários fardados formaram sob o comando do sargento Anchieta da Silva, dirigiram-se à Praça 10 de Março, e fazendo continência ao velho cruzeiro, dispensaram-se. Entre as consequências da derrota paulista destacou-se o manifesto “Ao Povo” em que o prefeito Dr. Orlando Sampaio, considerando-se exonerado e aguardando a nomeação de seu substituto, pediu cabal obediência às autoridades. O senhor Cícero Barbosa Lima foi nomeado e pela segunda vez assumiu a Prefeitura em hora difícil.
O espírito da Revolução iria perdurar por muito tempo, tamanho foi o engajamento da população. As aulas do Grupo Escolar foram reiniciadas no dia 10 de outubro. Retornaram voluntários que combateram em outros setores ou estavam presos, voltaram as retretas da Banda Municipal às quintas-feiras e domingos e por fim um baile foi realizado no “Santa Cecília”, de cordialidade e pelo retorno de todos.
