
Ginásio Montenegro – Reminiscências de um ex-aluno
Revista da Comarca de Ituverava
O “Ginásio de Ituverava” ou “Ginásio Montenegro” como era designado, de preferência, pelos moços e moças que cursaram suas aulas aí pelos anos de 1924, 1925 e 1926, funcionou no vetusto sobrado da Praça 10 de Março, onde se acha presentemente o Ginásio Municipal.
Seu aspecto exterior era mais ou menos o de hoje. No andar térreo estavam quase todas as salas de aula, enquanto que no primeiro andar se achavam instaladas a diretoria, secretaria, residência dos professores, além de uma sala de aula para a turma feminina.
Os pátios eram maiores, pois se estendiam até os muros da residência da família Lúcio Henrique. As árvores frutíferas desapareceram, restando apenas a jabuticabeira. Estas e os cajueiros davam sério trabalho ao vigilante.
Fundou o Ginásio e era seu diretor o professor Américo Montenegro, paraibano, formado em Agronomia, educador entusiasta, conhecedor de todo o Brasil e patriota apaixonado. Nas aulas de História Pátria e Geografia do Brasil, empolgava os discentes com sua eloquência e entusiasmo.
Começava em tom natural, mas logo chegava até a atrapalhar as aulas vizinhas. Tão famoso e tão discutido, tinha frases como esta que registrei numa velha Antologia: “No seu percurso de milhares de quilômetros, nunca deixa o Amazonas de ser prodigiosamente opulento em peixe – duas vezes mais que o Mediterrâneo. Contam-se milhares de espécies peculiares a ele!”.
Nem sempre entendíamos suas magníficas perorações, mas aprendíamos a estimar as nossas coisas e admirar o grande vulto de nossa história. Maravilhava-nos com as descrições de cidades, portos, rios e lugares por onde havia andado nas suas peregrinações através do Brasil, tudo isso ilustrado com mapas e fotografias.
Contava-nos peculiaridades dos habitantes do Norte e do Rio de Janeiro. Lia-nos notícias dos jornais, comentava com grande conhecimento e desenvoltura a política internacional e a primeira grande guerra, terminada havia poucos anos.
O batalhão do Ginásio, garboso deveras, como podem atestar as fotos do tempo, uniformizado como os Tiros de Guerra, desfilava de madrugada ao som de excelente banda de tambores e cornetas. E à noite tínhamos a clássica sessão cívica com os recitativos, números de canto, discursos e a indefectível pregação patriótica do professor Montenegro.
As famílias dos alunos se comprimiam nas salas do colégio para assistirem aos discursos e recitativos dos filhos e parentes. O ardor e a sinceridade que emanavam da personalidade flamante do diretor contagiava a assistência. Via de regra, as festas escolares são monótonas e iguais, mas não as do Colégio Montenegro. Todos gostava delas: os alunos, os pais, mas ninguém apreciava mais do que o próprio professor Montenegro.
Das páginas da nossa História sacava apenas os feitos históricos, os sacrifícios sublimes, as provas de desinteresse e beleza. Nesses dias era certo virem à baila seus tópicos grandiloquentes a respeito da riqueza do Brasil: “Minas Gerais representa um peito de ferro com um coração de ouro. Elevam-se ali montanhas daquele metal”, dizia com a convicção própria dos iluminados.
Em que pese sua crença um tanto ingênua na inesgotável riqueza do nosso solo e de nosso subsolo, era Montenegro um grande professor: culto, inteligente, patriota, amigo de todos os alunos, dirigia-os em todas suas atividades, e era com tristeza que tomávamos conhecimento de suas curtas viagens a São Paulo.
Não obstante todo seu esforço, patriotismo e inabalável otimismo, não logrou obter o reconhecimento do Colégio que era como dizia ele, uma parte de seu ser. No fim do ano de 1926, muito lealmente aconselhou os alunos a que se ingressassem nos exames de admissão aos Colégios Oficiais ou equiparados, uma vez que no próximo ano o Ginásio de Ituverava deixaria de funcionar.
Nós, seus alunos mais fiéis, ficamos com a morte no coração. Porém, Montenegro, embora sentisse muito mais, aparentemente não se deixou abater. Aconselhando medidas, recomendando, fornecendo atestados, encaminhando alunos para Ribeirão Preto, Franca ou São Paulo, encerrou suas atividades em Ituverava.
Na última reunião que promoveu, não perdeu ocasião, para mais uma vez demonstrar sua crença inabalável no futuro de Ituverava, de São Paulo, do Brasil e de seus alunos.
Frequentei depois colégio interno e fui aluno dos institutos oficiais, tendo tido ocasião de encontrar professores competentes, entusiastas e amigos, mas nenhum como o professor Montenegro. Se pudesse, gostaria de escrever um dia um artigo e seria ao professor Montenegro a quem devoto a mais sincera afeição, embora não o veja desde aquela melancólica reunião de 1926.
Vários foram os professores do Ginásio; muitos não se demoravam aqui; lecionavam algum tempo e partiam logo. Permaneceram mais os professores João Schmidt, Nabor Neves, Dermeval Arouca, etc. O professor Nabor era estimadíssimo e competente. Era o que se poderia chamar de “perito em tudo”. Sabia português, literatura, história, matemática, desenho e caligrafia.
Sim, porque no velho Ginásio se aprendia a arte de grafar bem e muita gente deve, hoje, o belo cursivo que tem aos ensinamentos daquele professor. Nunca repreendia ninguém e tinha um sorriso permanente. Era muito rigoroso nas aulas de desenho e fazia-nos gastar papel e nanquim em quantidade até que julgasse satisfatórios os desenhos geométricos ensinados. Dizia-se que havia interrompido um curso de Medicina. Mais tarde formou-se em Direito e até alguns anos vivia em São Paulo. Quando se despediu houve lágrimas comovidas.
Outro professor que deixou saudade foi o Dr. Sebastião de Vasconcelos Leme, que militou na advocacia local durante algum tempo e que hoje é desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo.
O Dermeval Arouca era ácido, sarcástico, frio, distante. Recordo-me de outro, severo e meticuloso que lecionou francês nos últimos tempos do Ginásio. Era dono de uma cara bizarra, triangular, os olhos lá no fundo… Dizia-se filho de alemães, mas sua pele morena nos intrigava. Respeitosamente, tínhamos sérias dúvidas sobre o seu arianismo, pois não admitíamos um alemão escuro.
E os alunos? Formavam classes heterogêneas quanto à idade. Moços de 18, 19 e mais anos eram colegas dos meninos de 10 e 11 anos. Havia três ou quatro classes masculinas, as quais formavam os cursos primário, intermediário e secundário. A classe feminina compunha-se de umas 30 moças e estava a cargo do professor Conceição.
Não me recordo senão de uma ou outra dessas colegas daquele tempo. Os meninos e rapazes eram uns 70 ou 80. Muitos entravam no meio do ano, como aconteceu comigo; outros saíam antes dos exames finais que, por sinal, eram rigorosos e solenes para alunos e professores, havendo vigilância especial contra cola.
Foram alunos assíduos e permaneceram matriculados durante o tempo em que fui aluno os seguintes: Getúlio Borges Filho (falecido pouco depois de haver deixado o Ginásio); Assaf Manduca; os irmãos Ribeiro da Rocha (Cristino, Domingos e José); Jorge Miguel Francisco (hoje médico no Rio); José de Paula Neto (considerado o melhor aluno do Ginásio); Milede Cury (hoje residente na Síria); os irmãos Soares de Oliveira (Irene, José, Henrique e Murilo); Abady Jorge; os Vicentini (José, Antônio, Laurindo e Álvaro); Antônio Barbosa Lima; Pitágoras Neves (irmão do professor Nabor); José Barbosa de Matos; José de Freitas; Antônio de Paula e Silva (também falecido); Picirili (falecido); os irmãos Peralta Cunha (Cervantes, José e Gentil); Lázaro Pereira; Abrahão Abdala; Laudelino Nunes da Silva; Wilson Viana; Ruy B. Lima; José Campanela; José Ferreira Teles e José Ribeiro Barbosa (ambos médicos na cidade); Bachirin; irmãos Durval Barbosa (Mozart, Múcio e Milton); Abrahão Miguel; Jamil Abdala, entre outros.
Sobre essa gente há um mundo de histórias, fatos e incidentes que poderiam ser contados e despertariam recordações; algumas agradáveis, outas tristes. Mas a visão interior sobre o que se foi, e com que frequência me acode, tem algo de cosmorâmica, sucedendo-se aí quadros sem rigidez de ordem lógica. E em se tratando dos tempos do Ginásio Montenegro, eles se atropelam aí em desordem, épocas, pessoas e coisas respectivas.
Também, lá se vão tantos anos… Fico por aqui, muito feliz por ter sido concedida esta oportunidade de fazer um pouco lembrada a figura do eminente Montenegro, tão cedo e injustamente esquecido, ele que foi o animador e o orientador de tantos moços de meu tempo.