Médico fala da importância do isolamento social

O médico Dr. Gonçalves Dias (CRM 85.237), Diretor Técnico da Santa Casa e Diretor da Equipe de Enfrentamento da COVID-19 na Santa Casa de Misericórdia de Ituverava concedeu entrevista semana passada, sobre a situação da pandemia do novo Coronavírus.

Na oportunidade, ele falou sobre como a instituição está preparada para atender os casos suspeitos e positivos, mas alerta que é necessária a colaboração da população, sobretudo, nas medidas de isolamento social. A questão principal é evitar que tenha muitos casos ao mesmo tempo e sobrecarregue o sistema, principalmente a UTI. “Estamos nos organizando da melhor forma possível e precisamos da colaboração da população. É isso que vai determinar, ao final, se vamos ter casos distribuídos ao longo do tempo ou muitos casos ao mesmo tempo”, lembrou Gonçalves.

O médico ressaltou que as pessoas idosas e pacientes crônicos requerem ainda mais cuidados. “A maior taxa da população que vai ser afetada é a dos idosos e de quem tem doenças crônicas. Idoso não tem que ir pra rua, receber visitas etc. Peça para alguém fazer as atividades para você. Então as pessoas precisam ter consciência de que é delas que depende o sucesso ou não no enfrentamento da pandemia”, salientou.

Para ele, não vai adiantar a estrutura que a Santa Casa está montando e ter uma explosão de casos no município, lembrando que Ituverava ainda é referência regional em Saúde e recebe pacientes graves de Guará, Miguelópolis, Igarapava, Aramina e Buritizal.

“O isolamento social é muito importante, visto que não tivemos casos positivos, somente suspeitos. Não é dúvida de que isso é fruto das medidas de isolamento que tomamos, além das medidas tomadas pelo governador. Isolamento social é o melhor a se fazer no momento, sem dúvidas”, frisa o médico. Leia na íntegra a entrevista.

Progresso: Como a Santa Casa está enfrentando esta situação de pandemia do Coronavírus?

Dr. Gonçalves Dias: A Santa Casa está se preparando da melhor forma possível e faz mais ou menos um mês. Antes de começar a aumentar os casos no Brasil, já tínhamos a preocupação de nos preparar para enfrentar essa pandemia, uma vez que somos uma regional de Saúde. Então nós começamos de uma forma bem precoce a criar protocolos, programas de fluxo etc. para que pudéssemos enfrentar da melhor forma possível. Já que não poderíamos esperar algo acontecer para tomar providências.

Estamos bem organizados e temos todos os protocolos para atendimento de casos da COVID-19, além da condução do caso na enfermaria, no Pronto Socorro e na UTI, então estamos muito bem organizados.

Progresso: O que foi alterado na rotina médica da instituição?

Dr. Gonçalves: Por enquanto não há mudança nenhuma. Os casos que chegavam, continuam chegando. Os casos que precisam ser tratados estão sendo tratados.

A mudança é no sentido de que as cirurgias eletivas, que podem esperar, não estão sendo realizadas, e isso é uma recomendação para o Brasil inteiro. A visitação está restrita, e os acompanhantes também foram reduzidos, sendo principalmente para os que precisam como pessoas idosas, crianças etc.

Além dos exames que possuem maior risco de contaminação, em que os mais urgentes estão sendo realizados dentro do protocolo e os que podem esperar serão remarcados.

Então, nós seguimos as normas e as diretrizes para o momento. O principal é isso.

Progresso: Como os médicos dos Itpac poderão ser utilizados neste momento?

Dr. Gonçalves: Os médicos internos da Itpac inicialmente não irão participar de nenhuma ação diferente no combate ao COVID-19. Eles continuarão seguindo a sua rotina normal, como todos nós médicos. Por exemplo, o que está passando pela cirurgia, continua pelo estágio de cirurgia, quem está no PSF continua lá, e assim sucessivamente. Lógico que eles ajudam no trabalho médico na Santa Casa e nos PSFs, mas eles continuarão com sua rotina normal.

Progresso: Quais os procedimentos que estão sendo tomados e medidas quando receber caso positivo do Covid-19?

Dr. Gonçalves: Não só a Santa Casa, mas toda a rede de Saúde de Ituverava tem um protocolo padrão de identificar o mais rápido possível o caso suspeito e a partir daí realizar o isolamento do caso suspeito. Por exemplo, ao chegar ao Pronto Socorro, a equipe de Enfermagem pergunta se tem sintomas gripais. Se sim, ele é investigado e orientado: caso sejam sintomas leves, ele é orientado a ficar em isolamento domiciliar e é comunicado à Vigilância Epidemiológica para o acompanhamento em casa.

Caso contrário, se necessário internação hospitalar, ele será levado para uma ala que chamamos de COVID-19, que é uma área isolada que só internam pacientes de COVID-19, são 16 leitos que estão com a única finalidade de receber esses pacientes, com médicos e enfermeiros próprios e únicos para aquele setor.

O paciente que chegou até a recepção do Pronto Socorro e não apresenta sinais gripais, vai para o fluxo de atendimento normal. Mas caso tenha sinais gripais, são encaminhados para as salas especiais.

Caso haja a internação, o paciente fica internado por 72 horas, e havendo a melhora ele continua em isolamento domiciliar. Se for um caso mais grave, com necessidade de ventilação mecânica, é encaminhado para a UTI.

Mas isso tudo está funcionando muito bem aqui no município. Todas as unidades de Saúde estão realizando a mesma triagem e identificando logo o que pode ser um caso suspeito, realizando o isolamento respiratório etc. Então tudo tem funcionado muito bem no município.

Progresso: Qual a expectativa do senhor diante deste desafio para o mundo, o Brasil e especialmente Ituverava?

Dr. Gonçalves: Estamos nos organizando da melhor forma possível e precisamos da colaboração da população. É isso que vai determinar, ao final, se vamos ter casos distribuídos ao longo do tempo ou muitos casos ao mesmo tempo.

Progresso: Em sua opinião qual a importância do isolamento social? Medidas que reduzem o fluxo de pessoas nas ruas são realmente necessárias?

Dr. Gonçalves: É de suma importância. Estudos mostram que, com as medidas do governador João Doria, uma pessoa está transmitindo no máximo para duas pessoas, o que seria para 12 pessoas caso não houvesse o isolamento social. Então, o isolamento social, hoje, é a ferramenta.

Somente com o isolamento social é que nós vamos conseguir controlar a pandemia. A palavra do momento é isolamento social. Quem é técnico ou da área da Saúde, não pode ter uma opinião diferente. Mas sabemos que existem pessoas que precisam sair para trabalhar, mas isso não significa sair e ficar na rua. Além de ser muito importante as medidas de higiene pessoal, lavar as mãos, evitar tocar o rosto etc.

A maior taxa da população que vai ser afetada é a dos idosos e de quem tem doenças crônicas. Idoso não tem que ir pra rua, receber visitas etc. Peça para alguém fazer as atividades para você. Então as pessoas precisam ter consciência de que é delas que depende o sucesso ou não no enfrentamento da pandemia.

Não adianta termos a melhor estrutura hospitalar do mundo e chegarmos a ter uma explosão de casos ao mesmo tempo. Até porque um paciente com necessidade de ventilação mecânica vai ficar na UTI 20 dias. Então, enchendo a UTI e enchendo o número de respiradores disponíveis, não tem como fazer mais nada. Nem tratar outros casos como traumas, infarto, AVC, pneumonia etc.

O problema é, no momento, evitar a explosão de casos. Sabemos que é quase impossível não termos casos, mas que eles venham ao longo do tempo e não ao mesmo tempo, para que o sistema de Saúde possa receber todos e tratar tudo de forma digna.

O isolamento social é muito importante, visto que não tivemos casos positivos, somente suspeitos. Não é dúvida de que isso é fruto das medidas de isolamento que tomamos, além das medidas tomadas pelo governador. Isolamento social é o melhor a se fazer no momento, sem dúvidas.

Progresso: O senhor consegue fazer os cálculos de quantos casos podemos ter na região atendidos por Ituverava, se a população respeitar as medidas?

Dr. Gonçalves: Levando em conta o dia que tivemos mais casos novos no Brasil e levando em conta a subnotificação de casos por conta de atraso nos exames, vamos fazer os cálculos considerando um aumento diário em torno de 13% ao dia.

Fazendo os cálculos, chegamos a um número de infectados que será em torno de 300 a 350 mil no final do mês de abril. Levando em conta a população do Brasil de 212 milhões, a taxa de infectados ao final de abril será em torno de 0,15%.

A região de Ituverava, Aramina, Buritizal, Igarapava, Guará e Miguelópolis tem aproximadamente 120 mil habitantes. Levando em conta a taxa de infectados de 0,15%, teoricamente teríamos em nossa regional aproximadamente 180 a 200 infectados.

A taxa de internação é em torno de 20% – 36 a 40 internados na regional. A taxa de internados em UTI é 5 % – 9 a 10 internados em UTI. A taxa de mortalidade mundial é de 2,5% – aproximadamente 5 óbitos na região.

Lembrando que o nosso clima é favorável, o isolamento social orientado e organizado são nossos grandes aliados para que esses números fiquem abaixo do previsto.