Aposta internacional da Globo, “O Anjo de Hamburgo” joga luz sobre os feitos de Aracy de Carvalho

A experiência na área de “streaming” faz a Globo buscar novas estratégias de produção. Depois de muito exportar suas novelas e séries, a emissora agora quer ir além ao idealizar obras em parcerias com produtoras e, especialmente, já faladas em inglês. Pensada desde 2018 e com o início das gravações adiado por duas vezes, “O Anjo de Hamburgo” é a primeira empreitada da emissora nesse novo modelo de negócio.

Ambientada durante a Segunda Guerra Mundial e com um tema de apelo universal: os horrores do Nazismo, a minissérie é uma parceria da Globo com Sony Pictures Television e a produtora Floresta. Em 10 capítulos, a série protagonizada por Sophie Charlotte e Rodrigo Lombardi conta a história de Aracy de Carvalho, esposa do renomado escritor de “Grande Sertão: Veredas”, Guimarães Rosa, e funcionária da Embaixada Brasileira em Hamburgo, na Alemanha.

De forma corajosa, Aracy, ajudou vários judeus a entrarem no Brasil de forma clandestina. “Quando conheci a história desta mulher incrível, que nos mostra como a esperança e o amor podem vencer o ódio, me senti determinado a contá-la para o mundo. Aracy é pouco conhecida no Brasil e em geral, as pessoas se lembram dela como a esposa do Guimarães. Com cuidado e respeito, a série quer mostrar a mulher inteligente, empática, batalhadora e que não cruzou os braços diante do que via ao seu redor”, destaca o diretor Jayme Monjardim.

Com roteiro assinado por Mário Teixeira, que contou com a colaboração da dramaturga inglesa Rachel Anthony e a consultoria de diversos historiadores e especialistas em cultura judaica – além de pesquisadores de relações internacionais -, a história de “O Anjo de Hamburgo” começa em 1938, quando entrou em vigor a Circular Secreta 1.127, que restringia a entrada de judeus no Brasil. Sem pestanejar, Aracy ignorou o documento e continuou preparando vistos para judeus entrarem no país.

Como despachava com o Cônsul-Geral, ela colocava os vistos entre a papelada para as assinaturas. Para obter o carimbo de aprovação, simplesmente deixava de colocar nos documentos a letra “J”, que identificava quem era judeu. Desse modo, livrou muitos da prisão e da morte do regime de extrema-direita de Adolf Hitler.

“O texto passou por diversos tratamentos até chegar na versão final. Por se tratar de uma história verídica, me cerquei de cuidados para que todos os detalhes dessa vida incrível fossem levados em consideração. Foram meses de leitura, pesquisa e dedicação ao lado de uma equipe imensa”, explica Mário Teixeira.

Por conta de todo esse cuidado com o texto, as gravações de “O Anjo de Hamburgo” foram adiadas de 2018 para 2019. Afinal, ocupado com os capítulos de “O Tempo Não Para”, Mário não teve condições de atender às alterações sugeridas pela Globo.

No ano passado, a dificuldade em encontrar locações novamente mudou o cronograma de gravações. Por fim, em janeiro deste ano, sob o comando de Jayme Monjardim, uma equipe de cerca de 100 pessoas aterrissou em Buenos Aires para o início dos trabalhos. “A arquitetura da cidade tem muita influência europeia e está totalmente em sintonia com a estética que queremos para esse trabalho”, justifica Monjardim.

Um dos pontos mais complicados para o elenco foi gravar com figurinos pesados de inverno durante o verão argentino. O jeito foi ensaiar só com metade das peças e gravar com todas as roupas necessárias para as cenas.

“Ficamos um mês na cidade. Foi bacana fazer essa imersão no trabalho. Como estamos atuando em outra língua, é preciso muito mais concentração”, conta Rodrigo Lombardi, que substituiu Mateus Solano no papel de Guimarães Rosa, e impressionou a direção da Globo com seu inglês fluente.