Em entrevista concedida ao Jornal O Progresso, o neurologista Dr. Luiz Monteiro falou sobre o novo projeto de AVC da Santa Casa. Trata-se de mais um benefício que a entidade já está proporcionando aos pacientes que dão entrada no Pronto Socorro com sintomas de Acidente Vascular Cerebral.
Na noite de quarta-feira, dia 29 de janeiro, a Santa Casa recebeu Certificação para equipes altamente treinadas para atendimento de urgências a pacientes com Acidente Vascular Cerebral no Brasil.
Além da equipe de Ituverava, o projeto envolve profissionais do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto que auxiliam nos atendimentos por meio de videoconferências. Confira a entrevista com o médico Dr. Luiz Monteiro:
Progresso: Desde quando o projeto de AVC está sendo implantado na Santa Casa? Quais etapas realizadas?
Dr. Luiz Monteiro: Em 2016 o projeto teve início, com implementação do primeiro protocolo de atendimento de AVC na Unidade de Emergência. Entretanto este protocolo não contemplava o uso do trombolítico, que é o medicamento revolucionário que hoje temos acesso. O início dos tratamentos com este medicamento se deu em maio de 2019 e desde então 11 pacientes já foram submetidos ao tratamento, com resultados fantásticos.
Progresso: Quantos pacientes já foram atendidos a partir dos novos procedimentos? Quais benefícios eles tiveram?
Dr. Luiz Monteiro: 11 pacientes trombolisados entre maio de 2019 e janeiro de 2020. Todos com excelente resposta, regressão drástica dos efeitos do AVC e a maioria deles hoje não apresentam nenhuma sequela.
Progresso: O que este projeto representa para a Santa Casa e para a Saúde do município?
Dr. Luiz Monteiro: É um passo que nos coloca em um patamar muito diferenciado no Estado e até no país. São menos de 100 hospitais no país realizando este tratamento, e menos de 10 cidades com até 100 mil habitantes no país com este recurso.
Progresso: Quais os próximos passos do projeto? Existe alguma previsão para implantação da Unidade de AVC? O que ainda é necessário cumprir?
Dr. Luiz Monteiro: Estamos em fase final de implementação da Unidade de AVC, que já possui setor físico e equipe determinada. Aguardamos a última etapa do credenciamento no SUS. Nosso projeto já correu trâmites em todas as instâncias anteriores, sendo aprovado, e no momento está em Brasília aguardando homologação final pelo Ministério da Saúde.
Progresso: Por que o senhor aceitou atuar como coordenador deste projeto? Como foram as adesões da diretoria, demais médicos e colaboradores?
Dr. Luiz Monteiro: Fiz meu treinamento em Neurologia em Belo Horizonte e participei de diversos atendimentos com este tratamento. Assim, para mim sempre foi um sonho trazer este projeto para a Santa Casa de Ituverava. Mas claro que sozinho eu jamais conseguiria, assim muitos foram os envolvidos. Dr. Antônio Marcos (médico responsável pela UTI), Dra. Maraísa (médica responsável pelo Pronto Socorro), presidente Busa, Cláudia Frata e Bruno Baldo (diretoria administrativa), funcionários da recepção, corpo de Enfermagem, equipe da Radiologia, Técnicos de Informática, Fisioterapia, Psicólogas, Setor de Nutrição, Serviço de Ambulâncias, Equipe da atenção básica do município, Faculdade, enfim, Ituverava abraçou a causa através de toda a sua equipe municipal de Saúde.
Progresso: Como a Santa Casa pretende conscientizar a população para realização dos procedimentos do atendimento dos pacientes com sintomas de AVC?
Dr. Luiz Monteiro: Este é o grande desafio para 2020. Estão programadas atividades envolvendo as mídias, os Centros de Saúde, os Centros de Educação, entre outras parcerias.
Progresso: Por que é importante todos estarem imbuídos para o sucesso destes atendimentos?
Dr. Luiz Monteiro: Temos que conscientizar a toda a população de Ituverava e região sobre a gravidade de um AVC e como suspeitar do diagnóstico. É claro que um médico é quem fará o diagnóstico, mas quanto antes o paciente ou algum acompanhante imaginar que possa se tratar de um AVC e chegar o mais rápido possível ao Pronto Socorro da Santa Casa, mais chances esse paciente tem de sobreviver e até de não apresentar sequelas quaisquer.
Progresso: Qual a relação do projeto e da equipe de Ituverava com a equipe do HC de Ribeirão Preto?
Dr. Luiz Monteiro: Essa é a cereja do bolo. Estamos trabalhando ombro a ombro com a equipe da Neurologia do HC de Ribeirão Preto (USP), que nos prestou diversos auxílios no processo de credenciamento do nosso programa junto ao Ministério da Saúde, além de auxiliar na implementação do projeto e compartilhar sua experiência neste tipo de tratamento.
Ter o apoio e a orientação de profissionais do calibre do Dr. Octávio Pontes, é excepcional e muito engrandece nossa iniciativa. Dr. Octávio é certamente um dos maiores especialistas em AVC no Brasil e até no mundo, e hoje ele auxilia na condução do nosso projeto.
Progresso: Como são utilizados aplicativo Join e as teleconferências durante os atendimentos de urgência em AVC?
Dr. Luiz Monteiro: Esta tecnologia é do futuro e foi um dos pontos chave para a implementação da Trombólise em Ituverava. Escuto muito falar dos médicos de antigamente, que cuidavam da família toda. Acho extremamente poético e tenho enorme respeito pelos nossos precursores, porém a medicina avançou muito em termos de novos diagnósticos, novos exames, novos tratamentos e até mesmo novas especialidades. Assim, é impossível que hoje um médico seja treinado e atualizado em todas as áreas do conhecimento. Assim, uma dificuldade era unir o paciente tendo um AVC no Pronto Socorro, com o serviço de Neurologia que não está 24h por dia, 7 dias por semana parado no PS esperando um paciente chegar. Assim o paciente é atendido por um médico generalista ou especialista em outra área. O aplicativo Join e as videoconferências uniram estas duas pontas. Hoje o paciente é atendido pelo plantão médico do Pronto Socorro, que através deste recurso tem o apoio em tempo integral do serviço de Neurologia, através de mim e da equipe do HC, que sempre participamos da avaliação dos pacientes e da tomada de decisões sobre o tratamento de cada caso.
Progresso: O representa para o senhor a realização deste projeto? Em quantas cidades ele está sendo executado?
Dr. Luiz Monteiro: São menos de 100 hospitais no país realizando este tratamento, e menos de 10 cidades com até 100 mil habitantes no país com este recurso. Resumindo: um sonho tornando-se realidade.