Para Fabricio Boliveira, “Juntos a Magia Acontece” vai além da representatividade negra e toca em questões ligadas aos homens

Em tempos de tanto debate sobre representatividade, a Globo aposta em um especial de fim de ano focado em uma família negra. Mas a reflexão proposta em “Juntos a Magia Acontece”, que vai ao ar na noite do dia 25 de dezembro, após “Amor de Mãe”, promete ir além.

Pelo menos é o que acredita Fabricio Boliveira, que interpretará o reprimido André no programa. Na trama, ele trabalha com cinema e, mesmo diante da morte da mãe, Neuza, papel de Zezé Motta, demora dias até voltar para casa. “Ele não conseguia lidar com a perda. A questão não foi falta de tempo, embora tente esconder no início e até use isso como argumento”, adianta.

Na visão do ator, o texto do especial, entre outras questões, trata um pouco do universo Masculino. André, por exemplo, terá dificuldades para enfrentar a morte da mãe. E será com a irmã, Vera, vivida por Camila Pitanga, que ele se abrirá. “Nós, homens, lidamos com as coisas desse jeito, sem conseguir encarar a realidade. No final, com a irmã, ele assume que se afastou porque não sabia lidar com a perda da mãe. É um espaço delicado de morte. O cara tenta se resolver sozinho e não com a família”, entrega.

Milton Gonçalves interpreta o pai do rapaz, Orlando, um senhor que entra em um processo de reclusão com a viuvez. Disposta a levantar o astral do avô, a neta Letícia, papel da atriz-mirim Gabriely Mota, o incentiva a mudar essa situação. E, assim, ele tem a oportunidade de encarnar um Papai Noel. “Não me lembro se pensei sobre Papai Noel negro quando criança. Mas, de algum jeito, me faltou representatividade, ver pessoas negras ocupando outros lugares, outros personagens. É muito estranho, no Brasil, a gente ter uma representação típica de Papai Noel como se ele fosse americano”, critica Fabricio.

Foi por isso, provavelmente, que nunca acreditou muito nos contos sobre o bom velhinho. “Acho que não acreditava muito naquela imagem. Gente, eu já propus até moqueca para o Natal”, conta. Enquanto gravava “Juntos a Magia Acontece”, Fabricio assumiu uma rotina intensa de trabalho.

Afinal, estava também finalizando sua pequena participação, de apenas três capítulos, na novela “Amor de Mãe”. Na trama, ele foi Paulo, que era casado com Vitória, interpretada por Taís Araújo.

Os dois tinham tantos problemas pelas tentativas frustradas de gravidez da advogada que, cansado daquela rotina e se sentindo um mero reprodutor, ele decidiu se separar. “Isso é muito atual, essa coisa do casal que quer ter fi lho e não consegue. Aí, tem de administrar o cotidiano sexual para poder engravidar”, opina ele, que não deve reaparecer no folhetim. “Por enquanto, ele não volta. Não estou sabendo de nenhum retorno”, desconversa.

Apesar das boas oportunidades que tem conquistado em sua carreira, Fabricio não acha que a situação dos atores negros tenha mudado tanto no Brasil. Pelo menos não para a maioria dos profissionais. Para ele, isso só vai acontecer quanto tiverem mais negros atuando. “Acho pouco ainda. Queria que chegasse o momento que eu não fosse mais chamado de ator negro, mas só de ator. Negro eu já sou no meu movimento, na minha história, na minha cultura”, desabafa.