Apostar em cinebiografias e em filmes que se desdobram em minisséries – ou vice-versa – tem sido uma constante na programação da Globo.
Então, não chegou a ser surpresa quando a emissora começou a produzir “Hebe”, que estreou como longa nos cinemas em setembro e, no último dia 13, teve 10 episódios de cerca de 50 minutos disponibilizados no serviço de streaming Globoplay.
A forma como a mulher mais querida da televisão brasileira é apresentada, no entanto, foge do comum. Não há uma narrativa linear e o tempo vai e volta, mesclando a interpretação de Andréa Beltrão, de uma Hebe mais madura, com a de Valentina Herszage, que mostra uma menina mais inocente, sofrida e, ao mesmo tempo, voraz e extremamente talentosa.
Alguns momentos importantes da vida de Hebe são bem explorados pela série – de forma muita mais intensa que no filme. Como o aborto que a então garota fez, após engravidar do namorado casado, e a proximidade com Paulo Maluf, que desagradou parte de seus fãs. Uma das cenas mais impactantes acontece ainda no começo da série, quando Hebe jogou seu microfone no chão, ao vivo, ao reclamar do desrespeito e da censura que sofria na Bandeirantes, isso na década de 1980.
Um misto de nostalgia e retrospectiva histórica pode acometer os telespectadores mais experientes. A epidemia de Aids aparece em entrevista da apresentadora à revista “Playboy” e é induzida quando ela nota um colega de trabalho com aspecto adoecido e bem magro. A própria pressão sofrida para evitar temas polêmicos, como os ligados à sexualidade e à política, ganha bastante espaço, revelando uma comunicadora sem papas na língua, mas também suscetível a erros.
Como em outras cinebiografias, é curioso ver atores interpretando nomes conhecidos da época – alguns ainda vivos, como Silvio Santos, encarnado por Daniel Boaventura. A escolha, aliás, surpreende, devido à diferença no porte físico entre os dois. Karine Teles e Cláudia Missura fazem Lolita Rodrigues e Nair Belo, respectivamente, as duas melhores amigas de Hebe. Cabe a Stella Miranda a função de encarnar Dercy Gonçalves, que já teve sua biografia gravada pela Globo, mas interpretada por Heloísa Périssé e Fafy Siqueira, em 2012. O segundo marido de Hebe, o ciumento Lélio, fica a cargo de Marco Ricca, e o sobrinho Cláudio, tratado como filho por ela, é defendido por Danton Mello. De maneira geral, ninguém do elenco decepciona. Mas são Andréa e Valentina que, de fato, chamam mais atenção.
Algumas peculiaridades da vida de Hebe são favorecidas pelo trabalho eficaz da equipe de direção de arte. Como seu fascínio pelas joias e pelos carros da Mercedes-Benz. O figurino extravagante é quase um sonho para a Hebe jovem, mas ganha realidade na fase das “vacas gordas”.
E, como já era de esperar, é justamente a vida privada da personagem-título que mais chama atenção na história, como a mãe amorosa, mas ausente. E, principalmente, a mulher totalmente à frente de seu tempo, mesmo que à sua maneira.