Milton Gonçalves vive misto de orgulho e emoção

Milton Gonçalves passará por um momento para lá de especial na tevê no fim deste ano. O ator, que completa 86 anos em dezembro, interpretará um Papai Noel no especial “Juntos a Magia Acontece”, que a Globo levará ao ar no dia 25 de dezembro. O programa focará nas relações familiares e mostrará o drama de um homem que, depois de perder a mulher, mostra-se sem ânimo para encarar a vida. “Senti uma emoção muito grande quando me caracterizei de Papai Noel. Quando eu era menino, não tinha Papai Noel negro.

Quando era menino, tudo o que era bonito não tinha negros e negras”, lamenta. Na história, Milton interpreta Orlando, um homem que, depois de ficar viúvo, entra em um processo de reclusão e se mostra sem vontade de viver. Disposta a levantar o astral do avô, a neta Letícia, interpretada pela atriz mirim Gabriely Mota, o incentiva a mudar essa situação. E, assim, ele tem a oportunidade de encarnar a figura do “bom velhinho”. “Estar aqui, hoje, fazendo esse personagem maravilhoso, eu vou chorar… Isso é uma batalha de muitos anos, de séculos, em que a gente tem de eliminar o medo. Somos cidadãos”, enaltece, valorizando os avanços que tem visto no que diz respeito à representatividade para a população negra. “Meu neto já tem uma visão diferente da que eu tinha. Vou fazer esse Papai Noel da melhor forma que eu puder”, garante.

Só de carreira na tevê, Milton soma mais de 60 anos de experiência. “Gosto de trabalhar, desde menino eu crio personagens”, recorda o mineiro, que nasceu no município Monte Santo de Minas, mas foi criado em São Paulo. No entanto, não esconde: tem inúmeras recordações ruins de sua infância e juventude. Exatamente por isso, interpretar o principal personagem dessa época de festas de fim de ano é tão especial para ele. “Eu poderia ter virado um bandido, poderia ser um montão de coisas. Mas o que me agradava era o teatro, era o cinema. Imagine você, com muita vergonha, eu batia palma para o Tarzan quando ele gritava. Não tinha noção de absolutamente nada. Com o decorrer do tempo, a gente vai aprendendo”, recorda, emocionado.

Sempre engajado nas questões sociais, Milton ainda sente falta de representatividade no cenário político. Para ele, o fato de viver em um país com uma população negra tão numerosa, deveria se materializar também nos cargos públicos – principalmente nos que são escolhidos pelo povo. “Meu país é o Brasil, os meus brasileiros são todos, negros, brancos, amarelos, azuis. O que me deixaria alegre era termos um presidente negro, porque somos um percentual grande desse país. Mas não é pelo fato de ser negro e sim porque todos nós somos seres humanos”, revela.

Representatividade, aliás, não faltará em “Juntos a Magia Acontece”. O especial terá no elenco, além de Milton e Gabriely, as atrizes Zezé Motta e Camila Pitanga e os atores Luciano Quirino e Fabrício Boliveira. O veterano, aliás, já caiu de amores por Gabriely. E torce para que ela tenha uma juventude melhor que a sua. “Há muitos anos, eu não pude entrar no cinema por ser negro, lá em São Paulo. Me falaram que eu não poderia sentar ali. A Gabriely é um amor de criança. Tomara que ela tenha um mundo melhor”, diz.