Assim que começaram a ser explorados pela televisão brasileira, os reality shows apostavam na imagem de desconhecidos. E, na maioria das vezes, em situações inóspitas, como a extenuação física de “No Limite”, que estreou em 2000 e teve quatro temporadas, ou a extenuação psicológica, caso do confinamento de “Big Brother Brasil”, que caminha para sua 20ª temporada em janeiro.
Claro, muitos são formatos internacionais comprados, ou seja: vale o que está virando tendência no exterior. E, nos últimos anos, alguns canais e produtores de conteúdos internacionais descobriram que usar famosos nessas produções poderia aumentar as chances de sucesso. O “Popstar”, dominical da Globo, caminha nessa direção, selecionando pessoas celebridades e subcelebridades para disputar a vaga de novo popstar nacional. E como o meio artístico envolve diversos talentos e a cultura dos musicais está cada vez mais em alta no Brasil, não é difícil garantir nomes que até estão em alta para compor o elenco desse tipo de programa.
Nesta terceira temporada, chama atenção a escolha do elenco. Assim como nos últimos anos, não teve muito como fugir do óbvio: a maioria dos participantes vem da dramaturgia. Afinal, deve ser mesmo o casting de atores o maior grupo de funcionários do canal que aparece na frente das câmeras. Mas há o jornalista Danilo Vieira, apresentadora de tevê e também atriz Babi Xavier e a trans Nany People, que também deu expediente recentemente na emissora como atriz de novela, em “O Sétimo Guardião”. A faixa etária do grupo também é bem diversificada, com participantes entre 22 e 61 anos, sendo a caçula a atriz franco-brasileira Yara Charry e Totia Meireles a mais experiente.
Os candidatos ao prêmio final parecem bem preparados. Mesmo os que não figuram na liderança dos episódios não chegam a passar vergonha ali – exceto uma ou outra letra de música errada, mas nada que não aconteça inclusive em shows profissionais. Certamente, poucas pessoas apostariam tanto na desenvoltura vocal de nomes como Babi Xavier e Letícia Sabatella, por exemplo.
A escolha do júri costuma ser boa, com profissionais experientes ou que, pelo menos, vivam uma rotina próxima à de um popstar do mundo da música. A emissora até tem evitado levar para a bancada outros atores, como fazia quando o programa estreou, em 2017. Uma atitude sensata, até porque nem todos têm condições de avaliar tecnicamente um candidato e muitos podem ter relações próximas demais com um ou outro participante, comprometendo a sinceridade da nota.
No entanto, estar no terceiro ano de produção não parece ter sido suficiente para garantir a sincronia perfeita na equipe que trabalhou nos bastidores para realizar uma transição perfeita entre os episódios gravados e a fase de apresentações ao vivo. E nem tem como abrir mão do tempo real em um show como esse, em que a interação com o público é tão valorizada e a aposta em mídias digitais se faz cada vez mais presente na estrutura da emissora. Teve show sendo interrompido e recomeçado, jurado despreparado para lidar com o mecanismo eletrônico para dar nota e, consequentemente, erro no cálculo do tempo disponível para tudo que o programa explora em pouco mais de uma hora de duração.
O problema maior quando esses erros ocorrem é que os mais expostos são os profissionais que estão à frente do reality. Chega a ser injusto ver críticas à apresentadora Taís Araújo, que coleciona êxitos em sua carreira de mais de 20 anos no canal. Ou mesmo a João Côrtes, vice-campeão da última edição que, neste ano, cobre os bastidores do programa. Primeiro, porque é claro que esses imprevistos acabam afetando a atuação de ambos, mas também porque fica a cargo deles disfarçar os equívocos e tomar atitudes rápidas para contornar a situação – o que nem sempre dá certo.